domingo, 8 de fevereiro de 2026
Alerta: crescimento menor, juros altos e famílias endividadas

Alerta: crescimento menor, juros altos e famílias endividadas

Projeção menor do PIB, Selic em nível elevado e alta do endividamento das famílias indicam cenário desafiador para a economia brasileira.

8 de fevereiro de 2026

A economia brasileira inicia 2026 sob um cenário que combina desinflação gradual com sinais crescentes de desaceleração da atividade e aumento das fragilidades estruturais. A revisão para baixo da estimativa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), aliada à manutenção da taxa básica de juros em níveis historicamente elevados, ao avanço do endividamento das famílias e à perda de tração em setores industriais, reforça a percepção de que o país pode enfrentar um período mais desafiador nos próximos meses.

O alerta mais recente veio da Secretaria de Política Econômica (SPE) do Ministério da Fazenda, que reduziu de 2,4% para 2,3% a projeção de crescimento da economia neste ano, conforme o Boletim Macrofiscal divulgado na sexta-feira (6/2).

Embora o ajuste pareça pequeno, ele sinaliza uma desaceleração gradual após um período sustentado por fatores pontuais, especialmente o forte desempenho da agropecuária em 2025. Para 2026, a expectativa oficial é de crescimento estável, acompanhado da continuidade do processo de desinflação, o que poderia abrir espaço para uma redução gradual dos juros básicos.

Ambiente pressionado

Ainda assim, o ambiente econômico permanece pressionado pela Selic em 15% ao ano — o maior nível desde 2006. A taxa elevada tem sido essencial para conter a inflação, mas cobra um preço relevante em termos de atividade econômica, encarecendo o crédito, reduzindo o ritmo dos investimentos e limitando o consumo das famílias.

O Banco Central sinalizou que poderá iniciar um ciclo de cortes já na reunião de março, caso o cenário inflacionário permaneça controlado. Mas a transmissão dos efeitos restritivos da política monetária ainda tende a pesar sobre a economia real.

No campo inflacionário, a projeção oficial aponta para um IPCA de 3,6%, próximo à meta de 3%. A desaceleração dos preços deve ser favorecida por fatores externos, como excesso de oferta global de bens e combustíveis e o enfraquecimento recente do dólar, além dos efeitos defasados da política monetária restritiva.

Mesmo assim, pressões moderadas sobre alimentos continuam no radar, mantendo o equilíbrio inflacionário dependente de variáveis externas.

Agropecuária e indústria

A revisão da projeção do PIB reflete, principalmente, a desaceleração esperada da agropecuária após a safra recorde do ano passado, evidenciando mais uma vez a forte dependência da economia brasileira do desempenho do agronegócio. Embora indústria e serviços devam ganhar participação relativa no crescimento, esses setores enfrentam desafios relevantes, como crédito caro, demanda interna mais contida e incertezas no ambiente internacional.

Os dados mais recentes da indústria automotiva ilustram esse cenário. Em janeiro, a produção caiu 12% na comparação anual, enquanto as vendas permaneceram praticamente estáveis, com leve retração de 0,4%. As exportações recuaram 18,3%, pressionadas principalmente pela queda da demanda argentina, parceiro estratégico para o setor.

O desempenho mais fraco dos veículos pesados, com forte retração nas vendas de caminhões e ônibus, pode indicar uma redução no ritmo dos investimentos e da atividade logística, tradicionalmente sensíveis ao ciclo econômico. Em contrapartida, o avanço dos veículos eletrificados, que já representam 16,8% das vendas totais, sinaliza uma transformação estrutural da indústria.

Endividamento

No sistema financeiro, outro sinal relevante veio do comportamento dos poupadores. A caderneta de poupança registrou saques líquidos de R$ 23,5 bilhões em janeiro, refletindo a migração de recursos para aplicações mais rentáveis em um ambiente de juros elevados. Embora parte do movimento seja explicado pela busca por melhores retornos, ele também sugere pressão crescente sobre o orçamento das famílias.

Esse diagnóstico ganha força com os dados da Confederação Nacional do Comércio (CNC), que mostram que o percentual de famílias endividadas alcançou 79,5%, igualando o maior nível da série histórica. Entre as famílias de menor renda, o indicador chega a 82,5%, evidenciando maior vulnerabilidade financeira em um contexto de crédito caro e renda pressionada.

Apesar de a inadimplência ter apresentado queda recente, o alto grau de endividamento pode limitar a capacidade de expansão do consumo — principal motor da economia brasileira nos últimos anos.

Cenário de incerteza

O cenário externo adiciona mais um nível de incerteza. A intensificação de tensões geopolíticas, a possibilidade de desaceleração da economia chinesa e o ambiente comercial global mais restritivo ampliam os riscos para exportações e para a estabilidade financeira internacional. Esses fatores aumentam a volatilidade e dificultam previsões mais otimistas para o crescimento.

Assim, embora a inflação mais controlada represente um avanço importante e possa abrir caminho para redução gradual dos juros, a economia brasileira entra em 2026 com sinais claros de moderação. A combinação de crescimento revisado para baixo, política monetária restritiva, fragilidade do consumo e desafios externos aponta para um cenário que exigirá cautela de empresas, investidores e formuladores de políticas públicas.

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