sábado, 28 de março de 2026
Sonho da classe média emergente: negócio próprio

Sonho da classe média emergente: negócio próprio

Classe C redefine o empreendedorismo como principal caminho de ascensão social no país, segundo pesquisa do Sebrae.

28 de março de 2026

A chamada “classe média emergente” tornou-se protagonista de uma transformação silenciosa — e profunda — no mercado de trabalho brasileiro. Hoje, os empreendedores da Classe C já representam quase metade dos donos de negócios no país. Segundo levantamento do Instituto Locomotiva em parceria com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae).

Mais do que uma tendência estatística, o movimento revela uma mudança estrutural na forma como milhões de brasileiros enxergam o trabalho, a renda e o próprio futuro.

Por trás desse avanço está um elemento cultural conhecido há décadas nas camadas populares: o “corre”, a capacidade de improvisar soluções para garantir renda. O que antes era estratégia emergencial de sobrevivência passou a se consolidar como projeto de vida — e, sobretudo, como ferramenta de mobilidade social.

Hoje, empreender deixou de ser apenas alternativa diante da escassez de empregos formais. Tornou-se escolha.

Estratégia de ascensão

O estudo mostra que 46% dos brasileiros acreditam que é possível melhorar de vida por conta própria — um índice muito superior ao daqueles que depositam expectativas em instituições tradicionais de mobilidade social. Apenas 3% confiam na empresa onde trabalham como caminho para prosperar, enquanto 8% apostam no governo.

Outros 22% atribuem essa possibilidade ao apoio religioso, e 13% à família.

O dado revela uma mudança simbólica importante: o protagonismo econômico passou a ser percebido como responsabilidade individual — e não mais institucional.

Nesse contexto, abrir o próprio negócio representa autonomia, liberdade de agenda e possibilidade de ganhos maiores do que no regime formal. Para milhões de brasileiros, trata-se de um caminho mais promissor do que a trajetória tradicional da carteira assinada.

CLT em baixa

A expansão do empreendedorismo popular também dialoga com transformações no mercado de trabalho. Jornadas extensas, deslocamentos longos, baixa previsibilidade salarial e ambientes profissionais desgastantes aparecem entre os fatores que estimulam a migração para atividades autônomas.

Outro elemento decisivo é o descompasso entre escolaridade e renda.

Entre 2004 e 2024, a média de anos de estudo da população com 25 anos ou mais saltou de 7 para 11 anos. No mesmo período, a renda mensal média do trabalho principal caiu de R$ 6.937 para R$ 6.561. Ou seja: mais qualificação não significou maior retorno financeiro.

Esse cenário reforça a percepção de que o esforço individual encontra limites no mercado formal — e amplia o apelo do empreendedorismo como alternativa concreta de progresso.

Independência

Segundo o Global Entrepreneurship Monitor (GEM), realizado no Brasil pelo Sebrae, ser dono do próprio negócio segue entre os maiores sonhos da população. A aspiração ultrapassa o campo econômico e se conecta à ideia de independência, reconhecimento social e estabilidade familiar.

Para o presidente do Sebrae, Décio Lima, esse movimento tem impacto direto na inclusão produtiva e na geração de oportunidades. “Milhões de homens e mulheres são motivados pelo sonho de empreender. Eles sustentam suas famílias, geram emprego, movimentam economias locais e fortalecem comunidades inteiras”, afirma.

Papel do Estado

Apesar do protagonismo individual, especialistas alertam que o avanço do empreendedorismo popular depende de um ambiente institucional favorável. Crédito acessível, capacitação técnica, inovação e segurança jurídica continuam sendo pilares essenciais para transformar iniciativas de sobrevivência em negócios sustentáveis.

Segundo Décio Lima, políticas públicas voltadas à produtividade das micro e pequenas empresas são decisivas para ampliar o impacto econômico desse movimento.

“Para que o país cresça com inclusão, é fundamental garantir acesso a crédito, inovação e qualificação. Isso amplia competitividade e cria oportunidades reais de mobilidade social”, destaca.

A ascensão da Classe C como motor do empreendedorismo nacional revela, portanto, uma mudança estrutural no Brasil contemporâneo: cada vez mais, o crescimento econômico passa pelas mãos de quem decidiu transformar o “corre” em projeto de futuro.

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