Pesquisa da CNI: 8 em cada 10 indústrias brasileiras enfrentam dificuldade para obter financiamento.

O custo do dinheiro segue como o principal gargalo para a retomada dos investimentos industriais no país. De cada dez empresas do setor, oito enfrentaram dificuldades para obter crédito. Tanto no curto e médio prazo quanto no financiamento de longo prazo.
O dado integra a Sondagem Especial: Condições de Acesso ao Crédito em 2025. Divulgada nesta segunda-feira (19/1) pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), com apoio da Associação Brasileira de Desenvolvimento (ABDE).
O levantamento revela que 80% dos industriais que encontraram obstáculos ao crédito de curto ou médio prazo (até cinco anos) apontam os juros elevados como o principal entrave.
Na sequência aparecem a exigência de garantias reais, como imóveis ou máquinas (32%), e a falta de linhas de crédito adequadas às necessidades das empresas (17%).
O cenário se repete — ainda que em menor intensidade — nas operações de longo prazo, acima de cinco anos. Nessa modalidade, 71% dos empresários atribuíram as dificuldades ao patamar dos juros, 31% às garantias exigidas e 17% à ausência de linhas compatíveis com projetos estruturantes.
“A atual política monetária é bastante restritiva e encarece o crédito. Com a Selic em 15% ao ano e juros reais próximos de 10%, o financiamento fica mais caro e desestimula investimentos em expansão e inovação”, avalia Maria Virgínia Colusso, analista de Políticas e Indústria da CNI.
Além de restringir a oferta, o custo do crédito tem reduzido a procura das empresas por financiamento. Nos seis meses anteriores à pesquisa:
Os números indicam cautela do empresariado diante do custo financeiro elevado e das incertezas macroeconômicas, especialmente em projetos de maior maturação.
A dificuldade de acesso é mais acentuada no crédito voltado a investimentos. Quase um terço das empresas que tentaram financiamento de longo prazo não obteve sucesso, enquanto cerca de 20% das que buscaram crédito de curto ou médio prazo também tiveram o pedido negado. O impacto varia conforme o porte da empresa:
Os dados reforçam que médias e pequenas indústrias são as mais vulneráveis à restrição financeira, sobretudo quando se trata de investimentos de maior prazo.
A percepção do empresariado também é negativa quanto à evolução recente das condições de crédito. 35% das empresas avaliaram que as condições de curto ou médio prazo pioraram, enquanto 33% fizeram a mesma avaliação para o longo prazo. Para 47%, o cenário permaneceu semelhante.
Apenas 14% relataram melhora no crédito de curto ou médio prazo, percentual que cai para 12% no longo prazo, evidenciando um ambiente financeiro ainda pouco favorável à retomada do investimento industrial.
Mesmo alternativas de financiamento seguem com baixa adesão. Apenas 13% das indústrias contrataram operações de risco sacado nos últimos 12 meses, enquanto 5% demonstraram intenção de contratar.
A maioria (54%) não utilizou nem pretendia utilizar essa modalidade, e 29% não souberam ou preferiram não responder.
O risco sacado é uma forma de antecipação de recebíveis em que o fornecedor recebe o pagamento antecipado por uma instituição financeira, enquanto o comprador assume o compromisso de quitar o valor na data acordada.
A Sondagem Especial ouviu 1.789 empresas industriais entre 1º e 12 de agosto do ano passado, sendo 713 de pequeno porte, 637 de médio porte e 439 de grande porte. O resultado traça um retrato consistente das dificuldades enfrentadas pela indústria brasileira em um ambiente de juros elevados, com reflexos diretos sobre investimento, inovação e crescimento econômico.
Enquanto a política monetária seguir restritiva, o crédito continuará sendo um dos principais limites à competitividade da indústria. Especialmente para empresas que dependem de financiamento de longo prazo para modernização e expansão produtiva.