terça-feira, 27 de outubro de 2026
Crédito rural despenca 42% em Goiás

Crédito rural despenca 42% em Goiás

Cenário levanta preocupações sobre a capacidade de financiamento de uma das principais atividades econômicas do estado.

27 de outubro de 2026

O agronegócio goiano enfrenta um cenário de maior restrição financeira no início da safra 2026/27. Os desembolsos de crédito rural em Goiás despencaram 42,18% entre julho e setembro, na comparação com o mesmo período do ciclo anterior, totalizando R$ 5,049 bilhões.

O movimento, identificado em levantamento da Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg), ocorre em meio à deterioração das condições de pagamento dos produtores e levanta preocupações sobre a capacidade de financiamento de uma das principais atividades econômicas do estado.

A retração não se limita ao volume de recursos. O número de contratos formalizados caiu 29,70%, para 9.845 operações, desconsiderando as Cédulas de Produto Rural (CPRs). Os indicadores revelam um início de safra marcado pela redução das contratações de crédito bancário, justamente em um período estratégico para o planejamento e a execução das atividades agrícolas e pecuárias.

O quadro ganha dimensão ainda mais preocupante quando analisada a carteira de financiamentos já contratados. Em agosto, Goiás acumulava R$ 21,749 bilhões em operações classificadas como problemáticas, o equivalente a 27,6% de todo o crédito rural ativo no estado. O montante inclui dívidas renegociadas, parcelas em atraso e contratos prorrogados, evidenciando a pressão financeira sobre parte significativa dos produtores.

A combinação de menos dinheiro novo e maior comprometimento da carteira existente representa um desafio para a dinâmica econômica do agronegócio goiano. A restrição ao financiamento pode afetar decisões de plantio, aquisição de insumos, modernização das propriedades e expansão da capacidade produtiva, com possíveis reflexos sobre fornecedores, agroindústrias e demais segmentos vinculados ao campo.

Custeio e investimento

A queda mais expressiva entre as finalidades do crédito ocorreu no custeio, cujos desembolsos recuaram 45,16%. Essa modalidade é fundamental para financiar despesas recorrentes da produção, como sementes, fertilizantes, defensivos, alimentação animal e outras necessidades operacionais.

Os financiamentos para investimento, destinados à aquisição de máquinas, equipamentos, tecnologias e melhorias estruturais nas propriedades, também registraram forte contração, de 37,48%.

A retração alcançou todos os perfis de produtores, mas foi especialmente intensa na agricultura empresarial. Entre os produtores dessa categoria não enquadrados no Pronamp ou Pronaf, o volume financiado caiu 45,11%, enquanto a quantidade de contratos diminuiu 46,35%. No Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural (Pronamp), os desembolsos recuaram 37,30%. Já na agricultura familiar, atendida pelo Pronaf, a redução foi de 18,72%.

A única modalidade que apresentou desempenho positivo foi a comercialização, com crescimento de 48,14%. Os desembolsos passaram de R$ 571,6 milhões para R$ 846,8 milhões, indicando maior direcionamento de recursos para operações relacionadas à venda da produção. O avanço, entretanto, foi insuficiente para compensar as perdas nas linhas de custeio e investimento.

Pressão financeira

O comprometimento da carteira de crédito constitui outro sinal de alerta. Dos R$ 78,841 bilhões em financiamentos rurais ativos em Goiás em agosto, R$ 57,092 bilhões estavam em situação regular. Os outros R$ 21,749 bilhões apresentavam algum tipo de ocorrência contratual que exige atenção das instituições financeiras.

As operações renegociadas representavam a maior parcela desse montante, com R$ 10,833 bilhões. Outros R$ 6,977 bilhões correspondiam a contratos inadimplentes há mais de 90 dias, enquanto R$ 2,221 bilhões registravam atrasos entre 15 e 90 dias. Havia ainda R$ 1,718 bilhão em operações prorrogadas antes do vencimento.

Embora nem todo esse saldo represente inadimplência efetiva, os números mostram que uma parcela relevante dos financiamentos passou por dificuldades ou alterações nas condições originalmente pactuadas.

O risco econômico está na possibilidade de formação de um ciclo de restrição financeira: produtores com maior comprometimento de suas receitas encontram dificuldades para acessar novos recursos, enquanto bancos e cooperativas de crédito podem ampliar exigências de garantias e adotar critérios mais rigorosos na concessão de financiamentos.

Desafio

O comportamento do crédito rural nos próximos meses será decisivo para avaliar a intensidade desse movimento. A agropecuária goiana possui forte integração com cadeias industriais, comerciais e de serviços, o que amplia a importância do financiamento para além das propriedades rurais.

A redução dos desembolsos, especialmente nas linhas voltadas à produção e à modernização, pode limitar investimentos e aumentar a necessidade de capital próprio ou de fontes alternativas de financiamento. Ao mesmo tempo, a evolução das renegociações e dos atrasos será determinante para a disposição das instituições financeiras em ampliar novas operações.

Os dados da Faeg ainda não permitem concluir que haverá redução da produção agropecuária, mas revelam um ambiente de crédito mais desafiador. Para Goiás, o principal risco é que a combinação de menor liquidez e maior exposição financeira dos produtores transforme uma dificuldade de financiamento em obstáculo ao crescimento de uma das principais engrenagens da economia estadual.

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