Mercado de trabalho registra menor taxa de desemprego desde 2012; informalidade elevada, porém, continua sendo um desafio.

O mercado de trabalho brasileiro encerrou o terceiro trimestre de 2026 com indicadores históricos de ocupação e renda, consolidando um cenário de baixo desemprego e expansão da capacidade de consumo das famílias. A taxa de desocupação recuou para 5,2%. Trata-se do menor patamar registrado para o período de julho a setembro desde o início da série histórica da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, em 2012.
Segundo dados divulgados nesta sexta-feira (30/10) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Eles mostram que o desemprego caiu em relação aos 5,4% registrados no segundo trimestre deste ano e aos 5,6% observados no mesmo período de 2025.
O resultado ganha relevância por estar acompanhado de dois movimentos simultâneos: crescimento do número de trabalhadores ocupados e aumento da renda real. Essa combinação fortalece o mercado consumidor, amplia a circulação de recursos na economia e oferece sustentação à atividade de setores como comércio e serviços.
Ao mesmo tempo, os números revelam uma contradição persistente. Apesar dos recordes, aproximadamente quatro em cada dez trabalhadores brasileiros continuam na informalidade. Condição que limita a proteção social e evidencia desafios relacionados à produtividade e à qualidade do emprego.
A população ocupada chegou a 103,6 milhões de pessoas, o maior contingente da série histórica. O crescimento foi de 0,6% em relação ao trimestre anterior, com a incorporação de 581 mil trabalhadores ao mercado. E de 1,2% na comparação anual, equivalente a aproximadamente 1,2 milhão de pessoas.
Em sentido contrário, a população desocupada caiu para 5,6 milhões de brasileiros. São 234 mil pessoas a menos procurando trabalho em relação ao segundo trimestre e 417 mil a menos na comparação com o mesmo período de 2025.
Outro indicador relevante é o nível de ocupação, que mede a proporção de pessoas empregadas entre aquelas em idade de trabalhar. O percentual alcançou 59%, também o maior da série, ante 58,8% no trimestre anterior.
A leitura conjunta desses indicadores é importante porque demonstra que a queda do desemprego ocorreu em um contexto de expansão efetiva da ocupação. E não apenas de redução do número de pessoas procurando emprego.
Do ponto de vista macroeconômico, esse desempenho representa um fator de sustentação da demanda doméstica. Especialmente em atividades mais dependentes do rendimento das famílias.
A evolução dos rendimentos é outro destaque da pesquisa. O rendimento médio real habitual dos trabalhadores chegou a R$ 3.790. Com isso, mantém estabilidade em relação ao trimestre anterior e registrando crescimento de 3,6% em comparação com o terceiro trimestre de 2025. O ganho anual foi de R$ 131, já descontados os efeitos da inflação.
Mais expressivo ainda é o comportamento da massa de rendimentos, indicador que representa o volume total de recursos recebidos habitualmente pelos trabalhadores. O montante alcançou R$ 387,5 bilhões, o maior da série histórica, com expansão de 1,5% no trimestre, equivalente a R$ 5,6 bilhões adicionais. E de 4,7% em 12 meses, crescimento de R$ 17,5 bilhões.
Esse avanço tem implicações diretas sobre a economia. Com mais pessoas trabalhando e renda real em expansão, aumenta o potencial de consumo de bens e serviços, favorecendo o faturamento das empresas e a arrecadação tributária.
Para o comércio varejista, a combinação de emprego elevado e crescimento da renda tende a representar um ambiente mais favorável às vendas, especialmente em segmentos ligados ao consumo cotidiano.
Nos serviços, que possuem forte dependência da demanda interna, a expansão da massa salarial também pode sustentar atividades como alimentação, transporte, educação, lazer e serviços pessoais. Entretanto, o efeito sobre o consumo depende de outras variáveis, como endividamento das famílias, condições de crédito, taxas de juros e confiança dos consumidores.
Apesar dos resultados positivos, a informalidade permanece como um dos principais desafios estruturais do mercado de trabalho. Segundo o IBGE, 37,5% da população ocupada estava em atividades informais no terceiro trimestre, o equivalente a 38,8 milhões de trabalhadores.
O percentual ficou ligeiramente acima dos 37,4% registrados no trimestre anterior, embora abaixo dos 37,8% observados no mesmo período de 2025. Os dados mostram que a expansão do emprego não elimina automaticamente problemas relacionados à qualidade das ocupações.
O desempenho do mercado de trabalho também merece atenção sob a perspectiva da política monetária. Uma economia com desemprego reduzido, maior contingente de trabalhadores ocupados e crescimento da renda tende a apresentar demanda doméstica mais resistente, mesmo em períodos de condições financeiras restritivas.
Esse movimento pode contribuir para sustentar a atividade econômica, mas também exige acompanhamento dos efeitos sobre preços, especialmente nos setores de serviços, nos quais os custos de mão de obra possuem peso relevante.
A relação, contudo, não é automática. O impacto inflacionário depende da evolução da produtividade, dos custos das empresas, das expectativas e da capacidade de oferta da economia. Para a condução dos juros, os dados de emprego representam uma peça importante do cenário, mas precisam ser avaliados em conjunto com os indicadores de inflação, atividade econômica e crédito.
Com o desemprego em patamar historicamente baixo, o debate econômico tende a ganhar uma dimensão adicional: a capacidade do país de transformar o crescimento da ocupação em ganhos sustentáveis de produtividade e renda.
O Brasil apresenta avanços importantes no número de trabalhadores empregados e no volume de rendimentos distribuídos à população. Entretanto, a elevada informalidade revela que parte expressiva da força de trabalho ainda está inserida em atividades com diferentes graus de vulnerabilidade
O fortalecimento do mercado de trabalho no médio e longo prazo depende de fatores como investimento produtivo, educação, qualificação, inovação, infraestrutura e ambiente favorável ao crescimento das empresas. Esses elementos são fundamentais para que os ganhos de renda não dependam exclusivamente da expansão do número de trabalhadores ocupados, mas também do aumento da produção por trabalhador.