Alta do petróleo causada pela guerra no Oriente Médio pressiona preços internos e leva governo a adotar medidas emergenciais.

O reajuste do preço do diesel anunciado pela Petrobras nesta sexta-feira (13/3) recolocou no centro do debate a estrutura do mercado de combustíveis no Brasil. Em um momento marcado por forte volatilidade no mercado internacional de petróleo e tensões geopolíticas no Oriente Médio.
A estatal informou que o valor do diesel vendido às distribuidoras será elevado em R$ 0,38 por litro a partir deste sábado (14/3). Com a mudança, o preço médio do diesel A — comercializado nas refinarias antes da mistura obrigatória com biocombustíveis — passará para R$ 3,65 por litro.
Já a participação da Petrobras no preço do diesel B, combustível que chega às bombas após a adição de biodiesel, ficará em média em R$ 3,10 por litro.
Embora o reajuste tenha sido parcialmente amortecido por medidas emergenciais do governo federal, a decisão ocorre em meio a um cenário internacional altamente pressionado. Com o preço do petróleo disparando após o agravamento do conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã.
O principal fator por trás da alta do diesel é o salto recente no preço do petróleo no mercado global. Nas últimas duas semanas, o contrato futuro do barril de Brent, referência internacional, passou de cerca de US$ 70 para próximo de US$ 100, uma valorização de aproximadamente 40% em apenas 15 dias.
A escalada ocorre em meio ao risco de bloqueio do Estreito de Ormuz, corredor marítimo estratégico entre o Golfo Pérsico e o Golfo de Omã. A região é responsável pelo escoamento de cerca de 20% da produção mundial de petróleo e gás.
A possibilidade de interrupção do fluxo global de energia elevou o prêmio de risco nos mercados e reacendeu temores de choque de oferta. Autoridades iranianas chegaram a alertar para a possibilidade de o petróleo atingir US$ 200 por barril caso o conflito se intensifique.
Diante desse cenário, a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, afirmou que a guerra foi determinante para o reajuste. Segundo ela, a tendência de preços era de queda poucas semanas atrás. “A guerra foi o fator determinante para esse aumento. Há cerca de 20 dias a tendência era de redução de preço”, afirmou.
O reajuste também reacendeu críticas sobre a estrutura do setor de abastecimento no país. A Federação Única dos Petroleiros (FUP) afirmou que o episódio evidencia “graves limitações” no modelo atual do mercado brasileiro de combustíveis.
Segundo a entidade, decisões tomadas nos últimos anos — como a venda de refinarias e a privatização da BR Distribuidora, concluída em 2019 — reduziram a capacidade de coordenação da cadeia nacional de abastecimento.
Para a federação, o país deveria fortalecer uma Petrobras integrada, com atuação ampliada em refino, distribuição e comercialização.
“Uma Petrobras integrada amplia a segurança do abastecimento, reduz a vulnerabilidade do país às oscilações externas e contribui para maior estabilidade na formação dos preços”, afirmou a entidade em nota.
O debate reflete uma discussão recorrente no setor energético brasileiro: até que ponto a abertura do mercado e a redução da presença estatal aumentam a concorrência ou ampliam a exposição do país à volatilidade internacional.
A escalada do petróleo já começa a influenciar as projeções macroeconômicas do governo. A Secretaria de Política Econômica (SPE) revisou para cima a estimativa de inflação para 2026. A previsão para o IPCA passou de 3,6% para 3,7%.
A revisão reflete principalmente a expectativa de aumento no custo dos combustíveis. De acordo com o estudo da equipe econômica: cada alta de 1% no preço do petróleo pode elevar o IPCA em 0,02 ponto percentual; e cada valorização de 1% do real frente ao dólar pode reduzir a inflação em 0,06 ponto.
O governo também elevou a projeção do preço médio do petróleo para US$ 73,09 por barril em 2026, ante estimativa anterior de US$ 65,97. Apesar disso, a expectativa de crescimento econômico foi mantida.
Como o Brasil se tornou exportador líquido de petróleo, a alta da commodity pode gerar efeitos mistos: pressionar a inflação doméstica, mas ao mesmo tempo fortalecer o saldo comercial e a arrecadação pública.
O episódio reforça o papel estratégico do diesel na economia brasileira. O combustível é amplamente utilizado no transporte rodoviário de cargas, responsável por grande parte da logística nacional e pelo escoamento da produção agrícola.
Por essa razão, variações de preço no diesel têm efeito direto sobre: custo do frete, preços de alimentos e inflação geral da economia.
Não por acaso, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, destacou que as medidas adotadas pelo governo priorizam esse combustível justamente por seu forte impacto inflacionário.
Com o cenário geopolítico ainda incerto e o petróleo em patamares elevados, analistas avaliam que o mercado de combustíveis deve permanecer sob forte pressão nas próximas semanas, mantendo o tema no centro das discussões econômicas e energéticas do país.
Para evitar um impacto mais forte nas bombas e na inflação, o governo federal adotou uma série de medidas emergenciais. Entre elas estão: zeragem das alíquotas de PIS e Cofins sobre a importação e comercialização de diesel; subvenção de R$ 0,32 por litro para produtores e importadores do combustível; e possibilidade de criação de imposto sobre exportação de petróleo
Segundo cálculos do Ministério da Fazenda, apenas a suspensão dos tributos federais representa redução de R$ 0,32 por litro. Somada à subvenção, a intervenção do governo gera um alívio potencial de R$ 0,64 por litro na cadeia de preços.
De acordo com Chambriard, sem essas medidas o reajuste necessário poderia chegar a R$ 0,70 por litro. Com a intervenção do governo, o impacto efetivo para o consumidor tende a ser muito menor. “O governo agiu tempestivamente, transformando um acréscimo de R$ 0,70 em um aumento praticamente irrisório”, disse a executiva.
A Petrobras também destacou que o diesel vinha registrando trajetória de queda nos últimos anos. Segundo a companhia o último reajuste havia ocorrido em maio de 2025, quando houve redução de preço. O último aumento foi registrado em fevereiro de 2025.
Considerando o período desde dezembro de 2022, a estatal afirma que o diesel vendido às distribuidoras acumula queda real de R$ 0,84 por litro, equivalente a redução de 29,6% descontada a inflação.