
Goiás concentrou 18,8% dos pedidos de recuperação judicial relacionados ao agronegócio brasileiro no segundo trimestre de 2026, segundo levantamento divulgado pela Serasa Experian.
Com 84 solicitações registradas entre abril e junho, o estado ocupa a segunda posição no ranking nacional, atrás apenas de Mato Grosso, que contabilizou 107 pedidos.
Os números colocam o setor agropecuário goiano entre os principais focos de atenção diante das dificuldades financeiras enfrentadas por produtores rurais e empresas ligadas à atividade.
O resultado ocorre em um cenário de retração nacional. De acordo com o Indicador Serasa Experian Agro de Recuperações Judiciais, o Brasil contabilizou 448 pedidos no segundo trimestre deste ano, uma queda de 20,7% em comparação com as 565 solicitações registradas no mesmo período de 2025. Em relação aos primeiros três meses de 2026, quando houve 474 pedidos, a redução foi de 5,5%.
Análise
Apesar da diminuição, o advogado Lando Bottosso avalia que os números não representam, necessariamente, uma recuperação da saúde financeira do agronegócio. Em entrevista ao Empreender em Goiás, ele explica que a mudança no perfil das garantias exigidas pelas instituições financeiras e a renegociação de dívidas podem estar contribuindo para a redução das solicitações de recuperação judicial, sem que isso signifique uma diminuição efetiva do endividamento.
“A recuperação judicial nunca foi o maior problema. Ela é só o efeito, não a causa. Os maiores problemas foram a falta de ajuste fiscal e uma elevação abrupta dos juros”, afirma.
Produtores rurais pessoas físicas
O levantamento da Serasa Experian mostra que Goiás aparece entre os estados com maior número de pedidos tanto de produtores rurais pessoas físicas quanto de pessoas jurídicas. No primeiro grupo, foram registradas 46 solicitações no segundo trimestre, o equivalente a aproximadamente 23,4% dos 197 pedidos contabilizados no Brasil.
Nesse recorte, o estado ocupa novamente a segunda posição nacional, atrás de Mato Grosso, que registrou 49 pedidos. Minas Gerais aparece em terceiro lugar, com 23, seguido por São Paulo, com 22, e Paraná, com 16.
Soja
Entre os produtores rurais constituídos como pessoas jurídicas, Goiás contabilizou 22 solicitações, ficando na terceira posição nacional, atrás de Mato Grosso, com 54, e São Paulo, com 28. No Brasil, essa categoria apresentou uma redução de 34,2% em relação ao segundo trimestre de 2025, passando de 243 para 160 pedidos.
Os dados também revelam que, nacionalmente, o cultivo de soja liderou as solicitações entre produtores pessoas jurídicas, com 70 registros, seguido pela criação de bovinos, com 28. Cana-de-açúcar, café e cereais completam a relação das cinco atividades com maior número de ocorrências.
Por que os pedidos diminuíram?
Para Lando Bottosso, um dos principais fatores que ajudam a explicar a redução dos pedidos de recuperação judicial é a mudança nas garantias utilizadas pelas instituições financeiras na concessão de crédito rural.
Segundo o advogado, operações que anteriormente poderiam ser incluídas nos processos de recuperação judicial passaram a ser estruturadas com garantias, como a alienação fiduciária, que, em determinadas condições, deixam os créditos fora dos efeitos do procedimento.
Na prática, isso pode reduzir a efetividade da recuperação judicial para produtores que possuem parte significativa de suas dívidas vinculada a esse tipo de garantia.
“Essa diminuição é muito mais sobre a modulação das garantias do que, de fato, a ausência de endividamento”, explica.

Movimento
Lando Bottosso afirma que esse movimento ganhou força a partir de 2024 e 2025, quando instituições financeiras passaram a adotar estruturas de crédito com maior proteção das garantias. Como consequência, produtores endividados podem encontrar mais dificuldades para utilizar a recuperação judicial como instrumento de reorganização financeira.
O especialista também aponta que a prorrogação de dívidas tem sido uma alternativa recorrente no setor, mas alerta que a medida nem sempre resolve o problema. “Então, no final da história, eles estão empurrando o problema e não resolvendo. […] Cada vez mais, o produtor está mais endividado”, afirma.
Juros elevados
Outro fator apontado pelo advogado é o custo do crédito. Segundo ele, operações financeiras com taxas elevadas podem comprometer a rentabilidade das atividades rurais e dificultar o pagamento dos compromissos assumidos pelos produtores.
Lando Bottosso explica que, em determinadas situações, o produtor contrata novos financiamentos para quitar dívidas anteriores, criando um ciclo de endividamento que tende a se agravar conforme aumentam os encargos financeiros.
“Você já está pegando a operação de 15%, você já não paga. A próxima, que o banco já vai ver que você está endividado, ele vai te vender a maior. Então, a primeira é 15%, depois é 18%, depois 20%, depois 25%. No final da história, você está pegando um dinheiro de 25% para pagar um de 15%”, exemplifica.
Na avaliação do especialista, o problema não se limita aos produtores rurais. O encarecimento do crédito também afeta instituições financeiras, fornecedores e empresas de outros setores da economia, dificultando investimentos e a expansão das atividades produtivas.
Mecanismo legal
Embora seja frequentemente associada à quebra de empresas, a recuperação judicial é um mecanismo legal que permite a produtores e empresas economicamente viáveis, desde que atendidos os requisitos legais, negociar dívidas e buscar condições para manter suas atividades.
Bottosso avalia que a percepção negativa sobre o procedimento pode dificultar a compreensão de sua finalidade, que é preservar a atividade econômica, os empregos e a capacidade de pagamento aos credores.
“É muito mais efetivo você salvar uma empresa do que fechar e construir outra. […] É muito melhor você salvar uma empresa que já está sólida, que conhece o mercado, do que deixar ela quebrar”, argumenta.
O advogado ressalta, entretanto, que o instrumento não é adequado para todas as situações. Sua efetividade depende das características das dívidas, das garantias envolvidas e da capacidade de reorganização financeira do devedor.
Segundo ele, a tendência é que os pedidos continuem sendo influenciados pelo formato das operações de crédito, especialmente diante do aumento das exigências de garantias por parte das instituições financeiras.
“Cada vez mais eu entendo que ela vai diminuir por uma questão de procedimento e não por questão de o Brasil estar melhorando ou não”, avalia.
Planejamento financeiro
Diante desse cenário, Lando Bottosso defende que os produtores rurais adotem uma gestão financeira mais rigorosa, com acompanhamento dos custos de produção, das despesas operacionais e dos encargos relacionados aos financiamentos.
Para o advogado, a capacidade de produzir e comercializar não é suficiente para garantir a sustentabilidade do negócio quando os custos financeiros comprometem a margem de lucro.
“Hoje não é só mais produzir, não é só mais plantar, e sim ter a gestão do negócio. No final da história, não é o quanto você produz, é o quanto vai sobrar no final do dia”, destaca.
Entre as alternativas para enfrentar dificuldades financeiras, ele menciona a análise dos contratos, a negociação com credores e a possibilidade de solicitar o alongamento de dívidas rurais, conforme as condições previstas nas normas aplicáveis a cada operação.
O especialista também alerta para os riscos de adiar sucessivamente os vencimentos sem avaliar a capacidade real de pagamento, uma vez que a prorrogação pode ampliar o saldo devedor e comprometer o patrimônio oferecido como garantia.
“Faça uma gestão para ver como está o seu endividamento, como está o custo operacional e o que vai sobrar no final das contas. Se essa conta já não for possível pagar, discuta agora”, orienta.
Para o agronegócio goiano, que respondeu por quase um quinto das solicitações de recuperação judicial registradas no país no segundo trimestre, o desafio envolve não apenas o acesso ao financiamento, mas também a capacidade de reorganizar compromissos financeiros e preservar a continuidade das atividades produtivas.
A redução nacional dos pedidos, portanto, não permite concluir que as dificuldades financeiras foram superadas. O comportamento do endividamento e as condições de acesso ao crédito permanecem como fatores importantes para avaliar os próximos movimentos do setor.
O Empreender em Goiás procurou a Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg), mas fomos informados que a entidade apenas orienta sobre endividamento, mas sem vínculo a recuperação judicial.