Equilíbrio das contas públicas, ampliação dos investimentos e aumento da produtividade estão na lista

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) iniciará seu quarto mandato em janeiro de 2027, diante do desafio de conciliar a expansão dos programas sociais, o controle das contas públicas e a retomada de um crescimento econômico sustentável.
Além das preocupações com a inflação, os juros e o endividamento, o governo precisará ampliar os investimentos produtivos e criar condições para fortalecer a indústria, o agronegócio e a geração de empregos.
Economistas ouvidos pelo Empreender em Goiás avaliam que o desempenho da economia brasileira entre 2027 e 2030 dependerá, principalmente, da capacidade de transformar o crescimento impulsionado pelo consumo das famílias em um modelo sustentado por investimentos, inovação e aumento da produtividade.
Foco
Para o economista Jeferson de Castro Vieira, o Brasil chegará ao próximo ano com o mercado de trabalho aquecido, crescimento dos salários reais e elevada utilização da capacidade produtiva das empresas. Nesse cenário, novos estímulos ao consumo, sem ampliação da produção, poderão pressionar a inflação.
“Seria uma transição de um modelo impulsionado pelo consumo das famílias e pela transferência de renda para um modelo baseado no crescimento da oferta, investimentos e aumento da produtividade. Acho que o governo tem que focar nessa questão”, afirma.
Orçamento
A presidente do Conselho Regional de Economia de Goiás (Corecon-GO), Adriana Pereira de Sousa, também considera que o próximo mandato exigirá decisões cuidadosas, especialmente diante das limitações orçamentárias e dos problemas estruturais que dificultam a expansão econômica.
“O cenário de janeiro ainda dependerá do fechamento de 2026, mas o desafio central já está colocado: ampliar o crescimento com estabilidade de preços, sustentabilidade fiscal e redução das desigualdades”, destaca.

Equilíbrio fiscal
Um dos principais desafios será compatibilizar as promessas de campanha com a necessidade de controlar o crescimento da dívida pública. Segundo Jeferson Vieira, propostas como a ampliação do Bolsa Família e a criação do Pé-de-Meia universitário poderão representar despesas adicionais expressivas para o orçamento federal.
“Nós tivemos muitas promessas de campanha, como o Pé-de-Meia universitário, a ampliação do Bolsa Família e uma série de reajustes. Isso pode adicionar dezenas de bilhões de reais por ano em despesas públicas. Então, isso tem que ser muito bem calibrado”, avalia.
Para Adriana, a manutenção dos programas sociais deverá estar acompanhada de medidas para melhorar a eficiência dos gastos, revisar benefícios tributários e assegurar fontes permanentes de financiamento.
“Responsabilidade fiscal e responsabilidade social precisam caminhar juntas. A continuidade das políticas sociais e dos investimentos depende de um orçamento sustentável”, ressalta.
Inflação e juros
A possibilidade de redução da Taxa Selic também estará condicionada ao comportamento da inflação, do dólar e das expectativas do mercado. Jeferson avalia que existe espaço para cortes nos juros, mas alerta para os riscos relacionados às taxas de longo prazo, que influenciam o financiamento de empresas e do próprio governo.
“A maior dificuldade para o Banco Central é cortar os juros caso a inflação suba e o câmbio permaneça sob pressão. Vai depender muito dessas duas variáveis”, explica.
Adriana pondera que uma eventual redução dos juros poderá facilitar o acesso ao crédito e aliviar o orçamento das famílias, mas não será suficiente, isoladamente, para recuperar o poder de compra.
“Inflação menor significa preços subindo mais devagar; não representa, necessariamente, a redução dos preços já praticados. A melhora do poder de compra dependerá da combinação de inflação controlada, emprego e crescimento da renda real”, esclarece.
Investidores
Outro ponto de atenção será a reação do mercado financeiro à formação da equipe econômica e às primeiras medidas do governo. Para os especialistas, a estabilidade das regras, a condução da dívida pública e a capacidade de articulação com o Congresso serão fundamentais para atrair investimentos.
Jeferson considera que o Brasil continuará oferecendo oportunidades para o capital estrangeiro, tanto em aplicações financeiras quanto em investimentos produtivos. Entretanto, ressalta que o comportamento do dólar dependerá das condições internas e internacionais, incluindo a política de juros e as tensões geopolíticas.
Adriana destaca que a continuidade política proporcionada pela reeleição não garante, por si só, a confiança dos investidores.
“A reeleição sinaliza continuidade política, mas a confiança dependerá da estratégia apresentada para o novo mandato. Os investidores observarão a coerência entre os compromissos anunciados, o orçamento disponível e a capacidade de execução do governo”, afirma.

Indústria e agronegócio
Apesar das restrições econômicas, os economistas identificam oportunidades de expansão em setores como infraestrutura, energia, agroindústria, tecnologia e serviços.
Jeferson aponta a Nova Indústria Brasil como uma oportunidade para fortalecer a produção nacional de semicondutores, fertilizantes, máquinas e equipamentos. Ele também defende investimentos em ferrovias, rodovias e na integração logística, com destaque para a Ferrovia de Integração Centro-Oeste (Fico), a Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol) e a Ferrovia Norte-Sul.
“Quando penso nisso, penso de uma forma agregada: indústria, agronegócio e infraestrutura. Podemos pensar em investimentos em máquinas, equipamentos e expansão da capacidade produtiva”, explica.
O economista também identifica oportunidades no comércio eletrônico, na construção civil e nos projetos financiados pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
Cadeia de alimentos
Adriana destaca que Goiás poderá se beneficiar da expansão das cadeias de alimentos, da indústria farmacêutica, dos biocombustíveis e da logística. Segundo ela, o avanço desses segmentos dependerá de investimentos, inovação e qualificação profissional.
“Na indústria, há possibilidades em alimentos, medicamentos, máquinas, equipamentos e biocombustíveis. A política industrial deve estimular inovação e competitividade, com metas e avaliação dos resultados”, afirma.
Os primeiros 100 dias
Para os economistas, o início do quarto mandato será importante para estabelecer as prioridades econômicas e reduzir as incertezas sobre a condução das contas públicas.
Jeferson defende que o governo apresente um plano fiscal consistente, estabilize as expectativas do mercado e estabeleça uma agenda de atração de investimentos privados, com participação de bancos públicos e estatais. Ele também considera importante construir um ambiente de cooperação entre o governo e os diferentes setores da sociedade.
“Se nós quisermos competir com os outros países do mundo, temos que aumentar a produtividade. Aumento de salários é interessante, transferência de renda é muito interessante, mas nós temos que aumentar a produtividade”, ressalta.
Adriana aponta como prioridades a apresentação de uma estratégia fiscal de médio prazo, a execução responsável do Orçamento de 2027, a condução da reforma tributária e a organização de projetos prioritários de infraestrutura. Ela também defende a integração entre proteção social, qualificação profissional e geração de renda.
Riscos
Entre os riscos para os próximos quatro anos, os especialistas mencionam o aumento descontrolado das despesas públicas, a pressão cambial, a persistência da inflação, as dificuldades de articulação política e as incertezas internacionais.
“O desempenho do próximo mandato deverá ser avaliado pela capacidade de transformar crescimento em desenvolvimento: elevar a produtividade, reduzir desigualdades e melhorar concretamente a vida da população. Isso exige planejamento, responsabilidade e avaliação permanente das políticas públicas”, conclui Adriana.