
Goiás fechou o ano de 2025 com 1.665 pedidos de recuperação judicial na área do agronegócio, de acordo com dados do Monitor RGF. O número representa 33% a mais da totalidade de pedidos feitos em 2024, que foi de 1252. O levantamento levou em consideração os trimestres do ano e a curva de pedidos dessa natureza foi crescente.
A cadeia da soja está entre as mais afetadas. Em comparação com o ano anterior, houve avanço significativo no volume de produtores que buscaram proteção judicial. A combinação de fatores adversos, como custos elevados de insumos, recuo das cotações internacionais da commodity, crédito mais restrito e juros em patamares elevados, tem comprometido o fluxo de caixa em diversas regiões do país.
Em situações mais críticas, produtores ingressam com pedidos de recuperação antes mesmo da colheita, numa tentativa de evitar a perda de máquinas, implementos agrícolas e até áreas produtivas.
Desequilíbrio
Para o advogado especialista em direito bancário e empresarial Felipe Wolut, o quadro atual é resultado de uma equação financeira cada vez mais difícil de equilibrar. “O produtor rural depende de previsibilidade. Quando há aumento expressivo no custo de produção, queda no preço da safra e dificuldade de acesso ao crédito, o desequilíbrio acontece rapidamente”, afirma.

Segundo ele, a recuperação judicial tem sido utilizada como um instrumento para reorganizar dívidas e preservar a atividade rural. “Não se trata de inadimplência deliberada, mas de uma estratégia para manter a empresa ativa diante de um ambiente adverso”, ressalta.
O ambiente jurídico também gera preocupação. Produtores relatam dificuldades na prorrogação de dívidas mesmo em casos de quebra de safra, além de decisões rápidas que autorizam a retomada de bens essenciais à atividade produtiva. “Quando máquinas e equipamentos são retirados da propriedade, a continuidade da produção fica comprometida. É necessário sensibilidade e análise técnica em cada caso”, avalia Wolut.
Ele lembra que a legislação prevê mecanismos de renegociação e tratamento específico ao produtor rural, mas observa que a aplicação dessas normas nem sempre ocorre de forma uniforme.
Para 2026, a perspectiva é de cautela. Caso o custo do crédito permaneça elevado e o mercado internacional não ofereça sinais consistentes de recuperação, a tendência é de manutenção ou até ampliação do número de recuperações judiciais no campo.
“Planejamento financeiro, revisão contratual e assessoria jurídica preventiva são medidas essenciais neste momento”, orienta o advogado. Na avaliação dele, a profissionalização da gestão rural e a busca por soluções negociadas antes do agravamento das dívidas podem ser decisivas para atravessar a crise e preservar um dos setores mais estratégicos da economia brasileira.