quinta-feira, 1 de outubro de 2026
Goiás se consolida como o 2º maior polo farmacêutico do país

Goiás se consolida como o 2º maior polo farmacêutico do país

O Estado produz cerca de 1,3 bilhão de unidades de medicamentos e concentra 18 indústrias. Setor emprega 17 mil trabalhadores

1 de outubro de 2026

Os dados do anuário colocam Goiás na faixa de 1 bilhão a 5 bilhões de embalagens comercializadas

Goiás consolidou-se como o segundo maior polo produtivo de medicamentos do Brasil, atrás apenas de São Paulo, segundo o Sindicato das Indústrias Farmacêuticas no Estado de Goiás (Sindifargo).

O desempenho ganha dimensão diante dos números apresentados pela 9ª edição do Anuário Estatístico do Mercado Farmacêutico, divulgado pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED), vinculada à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), com dados referentes a 2025.

Segundo o presidente-executivo do Sindifargo, Marçal Henrique Soares, as indústrias instaladas no Estado produzem cerca de 1,3 bilhão de unidades de medicamentos. O resultado não está concentrado somente no Distrito Agroindustrial de Anápolis (Daia), tradicionalmente associado à indústria farmacêutica goiana. Goiânia e Aparecida de Goiânia também participam da cadeia produtiva.

No cenário nacional, o mercado farmacêutico movimentou aproximadamente R$ 182,8 bilhões em 2025, crescimento nominal de 13,7% em comparação com 2024. Ao todo, foram comercializadas 6,3 bilhões de embalagens, avanço de 3,7% em um ano. O levantamento reúne informações de 230 empresas, 7.096 produtos, 14.371 apresentações de medicamentos, 515 classes terapêuticas e 1.905 princípios ativos.

Volume

Os dados do Anuário colocam Goiás na faixa de 1 bilhão a 5 bilhões de embalagens comercializadas, patamar alcançado também por São Paulo. Quando observado o faturamento, entretanto, o cenário é diferente. Goiás aparece na faixa entre R$ 1 bilhão e R$ 10 bilhões, enquanto São Paulo supera R$ 100 bilhões.

A diferença entre a posição alcançada em volume e a faixa de faturamento ajuda a revelar uma característica da indústria instalada em Goiás: a forte participação de medicamentos produzidos e comercializados em grande escala, especialmente genéricos e similares.

Segundo Marçal, entre os produtos fabricados em maior quantidade no Estado estão analgésicos, como dipirona e paracetamol, medicamentos para controle da pressão arterial, anti-inflamatórios, antibióticos destinados às vias respiratórias e soluções hospitalares.

Outro segmento em que Goiás tem participação expressiva é o de soros. De acordo com o presidente do Sindifargo, duas fábricas, localizadas em Goiânia e Aparecida de Goiânia, respondem juntas por aproximadamente 30% da produção nacional.

“Somando a nossa produção de soro, nós estamos em torno de 30% da produção nacional. São duas fábricas que temos, uma em Goiânia e uma em Aparecida. O importante de tudo isso é que são medicamentos genéricos com um preço muito acessível, o que aumenta muito o acesso dos medicamentos pela população brasileira”, afirma.

Destaques

O peso do polo goiano também pode ser observado na presença de empresas instaladas no Estado nos rankings nacionais apresentados pelo Anuário.

O Grupo Hypera, que mantém relevante estrutura industrial em Anápolis, ocupa a 5ª posição no ranking geral de empresas do mercado farmacêutico, com faturamento situado entre R$ 5 bilhões e R$ 10 bilhões. O grupo aparece ainda na 6ª posição entre genéricos, na 6ª entre similares e na 4ª colocação no segmento de medicamentos novos.

A Geolab Indústria Farmacêutica ocupa a 13ª posição nacional entre os genéricos e a 14ª entre os similares. Nos dois casos, aparece na faixa de faturamento entre R$ 250 milhões e R$ 500 milhões.

Indústrias e empregos

A indústria farmacêutica em Goiás emprega 17 mil trabalhadores com carteira assinada e outros 4 mil prestadores de serviços

O polo farmacêutico também possui peso na geração de empregos. Segundo o Sindifargo, Goiás possui atualmente 18 indústrias licenciadas pela Anvisa produzindo medicamentos. Juntas, elas mantêm cerca de 17 mil trabalhadores com carteira assinada e outros 4 mil prestadores de serviços.

Marçal atribui a consolidação do setor a um processo de industrialização construído ao longo de aproximadamente três décadas, envolvendo políticas públicas de diferentes governos estaduais, investimentos empresariais e formação de mão de obra.

“Cada governo colocou seu tijolo, seu bloco para que esse setor chegasse onde chegou. Isso foi muito importante, o esforço de todo mundo. Mas o principal esforço é dos nossos empresários. Precisa ter muita coragem para investir”, afirma. O dirigente também destaca a participação dos trabalhadores. “Eles são treinados, são capacitados, estudam e estão trazendo resultado para nós.”

Canetas emagrecedoras

Além dos medicamentos tradicionais, empresas ligadas ao polo goiano começaram a avançar sobre produtos de maior valor agregado. Um dos exemplos está no mercado das chamadas canetas emagrecedoras.

Segundo Marçal, empresas relacionadas ao setor em Goiás já obtiveram registros para importação desses medicamentos. Parte dos produtos já estaria sendo importada por Anápolis e distribuída a partir de Goiânia. A fabricação, porém, ainda não ocorre no Estado.

Marçal Henrique Soares: “As indústrias goianas estão começando a ter uma visão de investimento em produtos de maior valor agregado”

O movimento faz parte, segundo o dirigente, de uma mudança gradual no perfil da indústria goiana. Empresas estão buscando medicamentos mais sofisticados e de maior valor agregado, além de apresentarem pedidos de registro de novos genéricos e similares à Anvisa.

“As indústrias goianas estão começando a ter uma visão de investimento em produtos de maior valor agregado. Já estão importando oncológicos, agora já estão importando canetas e já estamos com petições de genéricos ou mesmo de similares de produtos de maior valor agregado dentro da Anvisa”, afirma.

Reforma tributária

Se os números de 2025 mostram a força alcançada pelo setor, a mudança no sistema tributário brasileiro aparece como um dos principais desafios para a manutenção da competitividade nos próximos anos.

Marçal afirma que o modelo de industrialização de Goiás foi estruturado, em grande medida, sobre incentivos fiscais que ajudaram a compensar a distância dos maiores mercados consumidores, concentrados principalmente nas regiões Sul e Sudeste.

Segundo ele, a redução desses benefícios deverá afetar diretamente a capacidade das empresas goianas de competir em preço. “O modelo industrial goiano foi construído ao longo de décadas, três décadas, em cima de incentivos fiscais. É um modelo industrial de industrialização de incentivos fiscais”, afirma.

O presidente do Sindifargo sustenta que parte das empresas já passou a reconsiderar novos investimentos diante das mudanças previstas. Segundo ele, projetos que poderiam ser executados em Goiás têm sido direcionados a outras regiões, entre elas o Amazonas.

“Algumas empresas que estavam investindo já pararam os investimentos e estão indo, por exemplo, para Manaus. […] Nenhuma indústria vai fechar e mudar, mas os novos investimentos serão dirigidos para os estados onde estão os grandes centros consumidores. Isso é uma realidade”, diz.

Produtividade

Para o setor, a saída passa por reduzir custos e aumentar a produtividade das fábricas. Automação, robotização e investimentos em medicamentos de maior valor agregado estão entre as estratégias apontadas para compensar uma eventual perda de competitividade tributária.

“A gente vai ter que ser criativo. Tem que ter capital, reduzir custos de outros setores da indústria, ganhar produtividade, principalmente ganhar produtividade, e robotizar as indústrias para que ganhem preço nessa escala produtiva”, afirma Marçal.

Apesar dos desafios, o Sindifargo projeta que Goiás consiga permanecer na segunda colocação nacional em volume produzido nos próximos anos. Superar São Paulo, porém, é considerado fora da realidade atual, principalmente pela diferença no número de indústrias instaladas.

“Em 2026, a gente continua em segundo lugar. Talvez até 2030 a gente continue em segundo lugar de produção de unidades”, projeta Marçal.

Transformação

A expectativa é que a próxima transformação não esteja necessariamente na quantidade de medicamentos produzidos, mas no valor dos produtos que sairão das fábricas goianas. A estratégia de migrar gradualmente de medicamentos de menor preço para produtos mais sofisticados pode mudar o perfil de um polo que alcançou projeção nacional justamente pela produção em grande escala.

“Eu não sei se a gente continua em segundo lugar em quantidade, mas, em valor agregado, vai haver uma grande mudança. […] A gente está vendo uma tendência das indústrias em sair dessas commodities baratinhas e produzir medicamentos mais sofisticados, medicamentos novos”, afirma.

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