Micro e pequenas empresas respondem por cerca de 38% da riqueza produzida no Estado e concentram 65% do saldo de empregos

Os pequenos negócios se consolidaram como uma das principais forças da economia de Goiás. O Estado reúne atualmente 950.176 empreendimentos desse porte, entre microempreendedores individuais (MEIs), microempresas (MEs) e empresas de pequeno porte (EPPs). São 525.714 MEIs, 368.678 microempresas e 55.784 empresas de pequeno porte espalhadas pelo território goiano.
A dimensão desse universo ganha destaque nesta segunda-feira, 5, quando é celebrado o Dia Nacional da Micro e Pequena Empresa. O peso do segmento também aparece na geração de empregos.
Entre janeiro e julho de 2026, as micro e pequenas empresas acumularam saldo positivo de 30.662 postos de trabalho em Goiás, equivalente a 65% do saldo considerado no levantamento do Sebrae. No mesmo período, médias e grandes empresas registraram saldo de 15.513 empregos.
Importância
Os números ajudam a dimensionar a importância de um setor formado, muitas vezes, por histórias que começam com pouco capital, estruturas reduzidas e o trabalho direto dos próprios donos.
É o caso da empresária Ilana Porto Lacerda, proprietária da Ilana Porto Semijoias, que começou vendendo peças de porta em porta e, 11 anos depois, comanda um negócio com dez funcionários e faturamento mensal superior a R$ 180 mil.
Em 2026, a data coincide ainda com os 20 anos da Lei Geral da Micro e Pequena Empresa, marco que estabeleceu tratamento diferenciado aos pequenos negócios no país.
“Eu vendia em eventos familiares, dos amigos, nos finais de semana. Eu sempre andava com a maleta para poder mostrar para as pessoas. O meio em que eu andava, eu vendia e vendia muito bem”, relembra Ilana.
Semijoias

Formada em Direito, ela não chegou a exercer a advocacia. Durante a faculdade, trabalhou com venda de veículos e, posteriormente, passou sete anos no setor bancário. Também trabalhou na administração de uma empresa familiar e chegou a estudar para concursos públicos antes de decidir seguir um caminho próprio.
A escolha pelas semijoias veio da possibilidade de iniciar um negócio sem funcionários e com produtos que poderiam ser transportados facilmente. No começo, parte da mercadoria era adquirida em consignação em Brasília.
“Eu queria que fosse algo mais leve, que eu pudesse transportar e levar para outros lugares. Queria que fosse a mercadoria pronta. Eu não queria depender de outras pessoas. Eu mesma conseguiria iniciar todo o processo e finalizar.”
Maleta
Durante aproximadamente dois anos, Ilana carregou uma maleta de semijoias e procurou clientes onde encontrava oportunidade. Vendia para antigos colegas, amigos e familiares, participava de eventos e chegava a oferecer as peças em estabelecimentos comerciais.
A experiência no banco também levou para o novo negócio uma disciplina que se transformaria em estratégia. Desde o primeiro dia, estabeleceu a meta de vender pelo menos R$ 500 diariamente. Caso não conseguisse atingir o objetivo, o valor era acumulado para o dia seguinte.
“Eu vendia em eventos familiares, dos amigos, nos finais de semana. Eu sempre andava com a maleta para poder mostrar para as pessoas. Eu ia, por exemplo, ao açougue e oferecia para os funcionários, perguntava para a dona se eu podia mostrar as peças para ela. O meio em que eu andava, eu vendia.”
Fluxo de caixa
O crescimento, entretanto, veio acompanhado de dificuldades comuns aos pequenos empreendedores. Ilana lembra que, no início, não sabia se as peças escolhidas teriam saída, qual deveria ser a margem aplicada e nem sempre possuía capital suficiente para sustentar o fluxo de caixa.
Como vendia parcelado e precisava recompor o estoque antes de receber integralmente dos clientes, chegou a recorrer à própria conta bancária para financiar a operação.
“O fluxo de caixa, eu não tinha dinheiro para ter esse fluxo de caixa. Então, no início, eu dependia muito do meu nome. Eu dava os meus cheques pessoais da minha conta pessoal.”
Outro obstáculo era encontrar os clientes. Como muitas pessoas não tinham disponibilidade durante o expediente, parte das vendas acontecia à noite e aos finais de semana.
“A empresária tem que ceder tempo, ceder energia por um sonho, por uma perspectiva que a gente nem sabe se vai dar certo. É muito difícil, porque você fica pensando: estou fazendo certo? É o melhor para mim? É o melhor para o meu casamento? Essas incertezas são muito grandes.”
A experiência de Ilana dialoga com desafios encontrados em levantamentos do Sebrae entre pequenos empresários goianos. Pesquisa divulgada em 2025 apontou aumento de custos, falta de clientes e dívidas entre as principais dificuldades relatadas pelos empreendedores. Ao mesmo tempo, 74% afirmaram utilizar redes sociais, aplicativos ou internet para realizar vendas.

Vendas para outros países
O negócio ganhou uma loja física em Goiânia e avançou para a produção própria. Atualmente, segundo Ilana, a empresa possui 10 funcionários e trabalha tanto com produtos de outras marcas quanto com semijoias autorais.
A marca também já realizou vendas para países como Estados Unidos, Canadá, Portugal e África do Sul. Agora, a empresária pretende ampliar a produção própria e concentrar parte da expansão no comércio eletrônico.
“Eu quero muito crescer a parte de produção, porque hoje, além de multimarcas de peças de fábricas, nós temos também a parte de produção, que é uma mercadoria autoral. O meu objetivo é aumentar as vendas através das redes sociais,” afirma.
Dedicação
Segundo Ilana, o faturamento atual supera R$ 180 mil por mês, com crescimento acima do registrado no ano anterior. Apesar da expansão, ela afirma que as dificuldades não desapareceram ao longo dos 11 anos de atividade.
“Eu não me arrependo de ter empreendido, muito pelo contrário. Passei por situações muito difíceis durante esses 11 anos de empresa. A gente precisa dedicar tempo, porque trabalha com pessoas. É importante estar presente no dia a dia, tanto na vida das pessoas quanto da empresa, para conseguir entregar um bom resultado,” frisa.