segunda-feira, 2 de novembro de 2026
Soja pode perder R$ 223 bilhões sem controle de pragas

Soja pode perder R$ 223 bilhões sem controle de pragas

Estudo aponta perdas de até 55% na produtividade e impacto de US$ 17,6 bilhões nas exportações.

2 de novembro de 2026

A ausência de controle de pragas, doenças e plantas daninhas nas lavouras de soja poderia provocar perdas de até R$ 223,5 bilhões por safra no Brasil. Com reflexos sobre as exportações, a inflação e os preços dos alimentos. A estimativa faz parte de um estudo da Universidade Federal de Viçosa (UFV), desenvolvido em parceria com a CropLife Brasil. Uma associação que representa empresas de biotecnologia, melhoramento genético e defensivos agrícolas.

A pesquisa dimensiona a importância econômica da proteção fitossanitária para a principal cultura agrícola brasileira. E revela o tamanho dos riscos associados à perda de produtividade. Em estados com forte presença do agronegócio, como Goiás, os resultados reforçam a relevância das tecnologias de manejo para a competitividade da cadeia produtiva.

Segundo as simulações, lavouras com controle considerado ótimo, equivalente a 80% de proteção, podem alcançar produtividade de 72 sacas por hectare. Com proteção parcial, o rendimento recuaria para 52 sacas. Sem qualquer controle, a produção cairia para apenas 32 sacas por hectare, uma redução de aproximadamente 55%.

Em escala nacional, a diferença representaria uma perda potencial de 121,3 milhões de toneladas de soja. Para compensar essa redução, seria necessário incorporar 33,5 milhões de hectares à produção agrícola, uma extensão próxima à área territorial de Goiás.

Exportações

Os impactos ultrapassariam os limites das propriedades rurais. No cenário de proteção ótima, as receitas brasileiras com exportações de soja alcançariam US$ 44,2 bilhões. Sem controle fitossanitário, esse valor cairia para US$ 26,6 bilhões, uma diferença estimada de US$ 17,6 bilhões por safra.

A retração da oferta também poderia elevar os preços da soja em até 49%, pressionando diferentes segmentos da economia. Como o grão é utilizado na fabricação de óleo vegetal e farelo destinado à alimentação animal, os efeitos chegariam às cadeias de carnes, leite e ovos.

O estudo estima que essa transmissão de custos poderia acrescentar aproximadamente 0,26 ponto percentual ao IPCA, indicador oficial da inflação brasileira. A pesquisadora da UFV, Ana Carolyne Carvalho, explica que a perda de produtividade no campo comprometeria a disponibilidade de matérias-primas. E elevaria os custos de produção de alimentos.

A análise considerou quatro doenças, incluindo ferrugem-asiática e mancha-alvo, cinco pragas agrícolas e nove espécies de plantas daninhas. Foram simulados diferentes níveis de proteção para medir seus efeitos sobre a produtividade e a economia.

Importância para Goiás

Para Goiás, um dos principais polos de produção de grãos do país, o estudo evidencia a importância econômica do investimento em produtividade, pesquisa e inovação agrícola. A proteção das lavouras influencia não apenas a rentabilidade dos produtores. Mas também a atividade de cooperativas, tradings, transportadoras, indústrias de processamento e empresas fornecedoras de insumos.

O levantamento considera diferentes estratégias de proteção, incluindo melhoramento genético, biotecnologia, bioinsumos e defensivos químicos. Também contempla o manejo integrado, que combina métodos de prevenção e controle para reduzir perdas.

A adoção dessas tecnologias representa uma oportunidade para empresas que desenvolvem soluções agrícolas, especialmente diante da necessidade de ampliar a produção sem aumentar proporcionalmente a área cultivada. Entretanto, os resultados são projeções de cenários hipotéticos e não representam perdas efetivamente registradas na safra brasileira ou especificamente nas lavouras goianas.

Uso de agrotóxicos

Apesar dos benefícios econômicos associados ao controle fitossanitário, o uso intensivo de defensivos químicos permanece no centro de discussões sobre sustentabilidade, saúde pública e segurança alimentar. Levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) aponta que o consumo anual de agrotóxicos no Brasil aumentou 4,4 vezes entre 2003 e 2023, passando de 180 mil para aproximadamente 800 mil toneladas.

Segundo os dados apresentados pelo instituto, o país alcançou uma utilização de 10,9 quilos por hectare plantado, acima dos indicadores dos Estados Unidos, de 2,85 quilos, e da China, de 1,9 quilo por hectare. Soja, milho e cana-de-açúcar concentram, conjuntamente, 76% do consumo brasileiro desses produtos.

O pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Robson Barizon alerta que determinadas substâncias podem provocar efeitos sobre a saúde humana e o meio ambiente, dependendo da toxicidade e das condições de exposição. Entre os riscos estão a contaminação do solo e dos recursos hídricos, além de impactos sobre polinizadores, organismos aquáticos e a biodiversidade.

A biotecnologia também apresenta resultados distintos conforme sua aplicação. Cultivares geneticamente modificadas podem reduzir a necessidade de determinados defensivos, mas variedades tolerantes a herbicidas também podem favorecer o uso intensivo desses produtos e a seleção de plantas daninhas resistentes.

Novas tecnologias

A CropLife Brasil sustenta que os defensivos autorizados no país passam por avaliações técnicas e estudos de segurança antes de sua comercialização. Segundo o coordenador de Sustentabilidade da entidade, Pedro Duarte, o desenvolvimento desses produtos exige investimentos elevados em pesquisa e processos regulatórios destinados a avaliar sua segurança quando utilizados conforme as recomendações.

Os números do Ipea, entretanto, mostram a dimensão da expansão do mercado. Entre 2005 e 2019, foram registrados 3.151 novos agrotóxicos no Brasil, dos quais apenas 20% foram classificados como de baixa toxicidade, segundo o levantamento. Em 2024, o país contabilizou 663 registros de produtos, ante 555 no ano anterior.

Dados do Ministério da Saúde divulgados pela organização Repórter Brasil também apontam 73.391 notificações de intoxicação por agrotóxicos entre 2015 e 2025, sendo 9.729 somente em 2025.

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