terça-feira, 18 de junho de 2024
Acieg defende plano diretor de negócios para Goiânia

Acieg defende plano diretor de negócios para Goiânia

Presidente da Acieg afirma que a capital está “sendo engolida” por Aparecida de Goiânia e Trindade. Confira nesta entrevista exclusiva.

25 de maio de 2024

Rubens Fileti: “Goiânia precisa assumir seu protagonismo e potencial para ser geradora de expansão regional”

Presidente da Associação Comercial e Industrial do Estado de Goiás (Acieg), Rubens Fileti alerta para a necessidade de criação de um plano diretor de negócios para Goiânia. Contemplando pólos de desenvolvimento econômico, de inovação e tecnologia, com atração de empresas e geração de empregos.

“Goiânia precisa assumir seu protagonismo e potencial para ser geradora de expansão regional”, enfatiza o empresário em entrevista exclusiva ao EMPREENDER EM GOIÁS. Para ele, a capital está “sendo engolida” por Aparecida de Goiânia e Trindade.

Também sugeriu várias ações para a recuperação do Setor Central de Goiânia. “É necessário um plano de recuperação e revitalização real dos negócios do Centro, que seja um projeto da cidade, não apenas de um mandato ou fim de mandato”, afirmou.

Sobre a reforma tributária, Rubens Fileti afirmou que ela aconteceu no escuro e às cegas. Segundo ele, o setor de serviços é o principal afetado e está desaquecido desde o anúncio do conteúdo da reforma. Confira a entrevista.

Quais são os maiores desafios no que diz ao desenvolvimento do comércio e da indústria em Goiás?

O grande desafio para o desenvolvimento econômico do comércio de Goiás é ampliar os olhares para o mercado internacional e tecnológico. Tradicionalmente o estado se destaca pelas riquezas do agronegócio. Os esforços contínuos em missões empresariais da Acieg junto com o governo têm apresentado as vantagens de se fazer negócios em Goiás O mercado global enxerga grandes possibilidades aqui como por exemplo: segurança, logística, desburocratização de instalações. Nosso maior desafio é apresentar essas vantagens para o mercado. É por isso que a Ficomex vem aí, com o objetivo de promover essa grande apresentação internacional de Goiás para o mundo.

A economia brasileira deve crescer na casa dos 2% este ano, segundo prevê o mercado. Qual a sua avaliação?

A economia goiana tem crescido em média de 0,5 a 1,5 ponto porcentual acima da média nacional. Esse ano há uma preocupação maior com a quebra de produção da safra, o que tende talvez a reduzir um pouco esse patamar ficando mais próximo de meio por cento acima do nacional. A indústria também não vem bem, pois o primeiro semestre não está sendo muito bom. No ano passado, foi muito bom. A indústria goiana e o comércio seguem no mesmo ritmo, não tem nada a mais nem a menos. O setor de serviço reduziu bastante o nível de contratação.

Diante desse quadro, a economia goiana vai crescer?

Então, com esse overview (panorama) dos setores, podemos dizer que o desempenho em Goiás tende a ser melhor do que o nacional. Mas não muito por conta do agro e do setor de serviços, que não estão no mesmo ritmo do ano anterior. Acredito que será necessário muito esforço para chegar a 2% do crescimento este ano, por conta dessa anormalidade nos setores. Então, essa é a realidade.

“A política monetária traça o ritmo de crescimento da economia. Esse duelo dentro do Banco Central, nos preocupa”

Qual é a expectativa em relação aos cortes dos juros básicos pelo Banco Central? Como isto deve afetar o setor produtivo goiano?

A gente teve um racha no Banco Central. Aquela opinião consolidada de que é preciso reduzir os juros em 0,5 ponto percentual ou mais por reunião do Copom já não existe mais. E esse racha dentro do BC preocupa muito a Acieg e as entidades, por conta da necessidade de estimular o consumo e o investimento. Essas duas variáveis precisam de um incremento. Estamos com a inflação sob controle, em um patamar que permite a redução dos juros

Como isso preocupa os empresários?

A política monetária traça o ritmo de crescimento da economia. Esse duelo dentro do Banco Central, nos preocupa. Então, vamos acompanhar o desdobramento dessa queda de braço dentro do Banco Central. Infelizmente, se tornou pública e polariza essa divisão de posicionamento na política monetária, que é algo muito sério.

Os pleitos do comércio e do setor de serviços estão contemplados pela reforma tributária?

Ainda não. O debate da reforma tributária está andando. A gente espera que essa lei complementar traga algum resultado. O setor de serviços está muito preocupado com a implantação dessa reforma. A visão da Acieg é que essa reforma foi feita no escuro e às cegas. Ela pode trazer o resultado esperado pelo governo, mas se não trouxer, a tendência é que haja um impacto forte na geração de negócios.

Percebemos que o setor de serviços, que é o grande afetado, está desaquecido após a reforma. Coincidentemente, desde setembro do ano passado, o setor deixou de ser um grande contratante no mercado de trabalho. Também reduziu bastante o seu ritmo de crescimento mensal, que era na faixa de um dígito, às vezes até dois. Mas, passou a ser negativo. Aquela gordura acumulada de expansão durante os dez meses se perdeu. Hoje, o setor trabalha na mesma faixa do comércio. Antes, o setor de serviços crescia em patamares muito mais elevados. Essa queda nos preocupa bastante.

Quais as consequências?

O setor de serviços é o motor do emprego e da renda. Então, se temos menos empregos, a renda tende a ser prejudicada. Ao afetar a renda, a dinâmica da economia tende a ser inferior. No longo prazo, percebemos que a reforma tributária, seja com leis complementares ou não, é prejudicial à dinâmica de crescimento da economia. Com um viés muito fiscalista, no médio e longo prazo, os efeitos podem ser mais danosos do que os já observados no curto prazo. O setor de serviços, grande prejudicado pela reforma tributária, já demonstrou uma falta de apetite para crescer e investir.

“É necessário revisar a política de expansão empresarial da capital. Não existe um plano diretor para os negócios.

Qual sua opinião sobre a criação de pólos de desenvolvimento em Goiânia?

A criação de pólos de desenvolvimento econômico é uma defesa histórica da Acieg. Mas esses polos precisam ser bem pensados. Defendemos uma revisão geral do setor Central de Goiânia e uma nova política de investimentos para recuperar a região, tanto com segmentos que podem ser direcionados para lá, principalmente tecnologia. No entanto, os hubs e grupos ligados à tecnologia têm preferido outras regiões. Então, é necessário revisar a política de expansão empresarial da capital. Não existe um plano diretor para os negócios. E isso é crucial. O grande temor é que o debate fique muito centrado na política, nos bairros e nas questões sociais, enquanto Goiânia está sendo engolida por polos econômicos importantes.

Então, Goiânia está ficando para trás?

Trindade tem crescido bastante, Aparecida é um fenômeno de crescimento de negócios e Goiânia fica apenas no crescimento orgânico. Abrem-se bares, serviços de hotel e outros serviços de suporte, mas são apenas isso: suporte. Goiânia tem potencial para ser geradora de expansão regional, mas atualmente tem sido apenas um suporte para a expansão do interior e da Região Metropolitana. Goiânia deve ser protagonista, mas muitas vezes não tem uma política econômica para exercer esse papel, o que é um grande defeito da economia goiana. Esses polos de desenvolvimento precisam ser pensados em conjunto com os setores público e privado. O setor público não tem habilidade nem interesse em planejar a questão de negócios da capital. É preciso repensar isso e trazer o tema para um debate mais sério, amplo e rápido.

Qual deve ser o principal compromisso e plano de ação do futuro prefeito com relação ao comércio e ao setor industrial de Goiânia?

É necessário repensar e revisar uma política e um plano diretor de crescimento dos negócios. Acreditamos que um plano de ação para um potencial candidato ou futuro prefeito deve estar conectado com a baixa expansão dos negócios na capital. Goiânia cresceu muito com grandes mercados, grandes redes no varejo e shoppings. No entanto, o varejo hoje está prejudicado pela concorrência com o e-commerce, sofrendo uma queda significativa. O setor de varejo, que já não apresentava grandes resultados, vinha com uma dinâmica gradativa, mas com pequenos saltos.

Nos últimos dez anos, o e-commerce tomou conta e o comerciante goiano se insere muito menos do que seria ideal. Ele é engolido por plataformas estrangeiras ou de outros estados. Goiânia não atraiu grandes centros de distribuição de produtos. Temos poucos, com algumas exceções de empresas de grande porte que conseguem sobreviver. O comércio em Goiânia virou um comércio popular, mas até este segmento tem sofrido com a influência da internet, reduzindo bastante os negócios. Exemplo está na Região da 44. O ritmo de expansão dessa área perdeu a dinâmica que tinha na última década e é necessário retomá-lo.

Como seria um plano diretor de negócios para Goiânia?

É crucial ter um gestor público que compreenda essa dinâmica e gerencie de forma mais refinada, com um olhar mais desenvolvimentista. Pensar o futuro da capital com uma visão de negócios é muito relevante, especialmente na atual situação de desaquecimento ou setorização. Alguns setores conseguem deslanchar, mas a grande maioria não. A economia da capital precisa ter protagonismo nas decisões de planejamento e grandes investimentos.

Hoje, Goiânia está longe de ser prioridade para grandes investimentos de grandes empresas. Essa dinâmica do comércio é preocupante, pois o modelo de negócio mudou. É preciso repensar como a cidade pode se enquadrar melhor e absorver essa cultura de inovação e tecnologia para transformar as empresas locais em grandes players de negócios e geradores de emprego. O futuro pode trazer resultados amargos se não passarmos por essa revisão. É necessário um plano diretor de negócios, que hoje não existe.

“Se continuar assim, daqui a 10 anos o Centro poderá se tornar uma cidade fantasma.

Com relação ao Centro de Goiânia, o senhor tem outras sugestões ou a proposta do Centraliza já atende todas as demandas da região?

O projeto Centraliza está na reta final da atual gestão em Goiânia. Ninguém garante que esse modelo será adotado completamente como está sendo proposto e votado atualmente. Portanto, é necessário um plano de recuperação e revitalização real dos negócios do Centro, que seja um projeto da cidade, não apenas de um mandato, especialmente um mandato de final de gestão. Precisamos garantir que esse plano seja seguido por administrações futuras.

É essencial dar real importância para o Centro e não apenas promover um debate unilateral. Os empresários precisam participar dessa construção, assim como a sociedade. O Centro está abandonado e, embora existam empresários que ainda acreditam e resistem, o fluxo de consumidores e negócios têm diminuído a cada década. Se continuar assim, daqui a 10 anos o Centro poderá se tornar uma cidade fantasma.

O que seria pontual em relação ao setor Central?

Precisamos implantar um grande setor de serviços, promover uma economia circular, fortalecer o setor cultural e desenvolver áreas de lazer como bairros com restaurantes e outros atrativos. Questões como segurança e trânsito também precisam ser discutidas. O Centro precisa se tornar um polo atrativo para as pessoas.

Primeiramente, precisa ser revitalizado visualmente, pois é necessário torná-lo mais limpo e agradável. Existem várias medidas que devem ser tomadas antes de transformarmos o espaço em um local realmente atraente para os consumidores. Atualmente, as pessoas não se sentem incentivadas a frequentar o Centro por diversos motivos, como segurança, trânsito e limpeza. Essas questões precisam ser discutidas e resolvidas para evitar o abandono do setor. Não podemos abandonar o Centro de Goiânia.

A Acieg tem realizado iniciativas para capacitar os empresários goianos visando fechar negócios com outros países. Quais serão os principais mercados?

A Ficomex é uma bandeira da Acieg que já vem sendo trabalhada há uma década. Houve um momento de destaque no final da primeira década dos anos 2000, em 2007, 2008 e 2009, quando o comércio exterior estava em alta. Desde então, o setor cresceu e evoluiu bastante. A Acieg sempre teve a missão e o propósito de trabalhar nessa política, mas agora renovou seu projeto, reestruturou suas iniciativas, participou de missões no exterior e levou essas missões em colaboração com o governo para a China em duas oportunidades.

A entidade é protagonista no comércio exterior e entende a importância da capacitação. Além da feira, que é um grande movimento de negócios ao longo do ano, a Acieg possui algumas verticais de trabalho, como capacitação e informação, que devem ser apresentadas este ano. Alguns projetos ainda estão sendo finalizados e as parcerias estão sendo firmadas para trazer esses projetos à execução.

A Acieg está muito atenta ao que acontece nesse segmento e conta com especialistas, técnicos, profissionais e empresários, o que nos dá confiança e segurança para realizar esse evento. A feira já é bem recebida pelo mercado e considerada pelos especialistas como o principal evento de comércio exterior do Brasil, ocupando mais de 14 mil metros quadrados.

Quais países têm se interessado em estreitar estes contatos?

A Acieg propõe e realiza muitas ações nesse segmento. Em relação aos países e continentes envolvidos, recebemos propostas de grandes players do continente africano, da Europa, principalmente da China e da Índia, com contatos que vêm gerando bons frutos desde o ano passado. A feira vai consolidar essas iniciativas, com a participação de players relevantes do mercado internacional. Os Estados Unidos são um parceiro importante, com quem temos uma ligação forte.

Esse contato com o comércio exterior, começando pela América do Sul e América Latina, é uma escola e um aprendizado para os empresários goianos, que podem se expandir posteriormente. Todo esse contexto faz a ACIEG estar muito otimista e assumir a responsabilidade de ser protagonista, juntamente com outras entidades e parceiros.

Qual a solução que o senhor sugere sobre a concorrência com os marketplaces internacionais?

A grande realidade é que a economia virou, ela está voltada para o mundo digital. O mundo digital não tem muitas barreiras, pois ele é, na verdade, um mundo linear. Você pode comprar e vender para parceiros em qualquer área onde essa rede alcança. Portanto, é necessário se especializar, formar e capacitar. Em vez de combater e criar muros e barreiras, é preciso ensinar e trazer o seu competidor, o seu parceiro local, a sua comunidade para vender em outros mercados. Não se trata de reclamar, mas de reconstruir, transformar e ressignificar o comércio.

Essa grande variedade de plataformas não é inimiga e não podemos virar as costas para elas. Elas, inicialmente, vão afetar bastante o nosso mundo de negócios. Se nos posicionarmos como reacionários, não daremos oportunidade para que nossos empresários sejam protagonistas nesse novo mundo. O novo mundo dos negócios está muito ligado à digitalização.

A partir do momento que compreendemos a mudança e participamos dela, podemos ensinar e adaptar. Há empresários no Vietnã, no Sri Lanka, em países menores da África, no Paraguai e na Colômbia utilizando marketplaces e gerando negócios. Por que não podemos fazer o mesmo? Nossos empresários goianos têm grandes vantagens competitivas, seja no agronegócio, na indústria têxtil ou em qualquer outro setor onde temos competência. Precisamos usar essa grande rede.

“O foco é preparar as empresas para o marketplace, para trabalhar com todas as plataformas ao mesmo tempo

Então, é hora de abraçar as plataformas digitais?

O modelo de negócio não deve ser baseado na reclamação, mas sim em aprender e usufruir dessa nova realidade. Assim como os shoppings surgiram nos anos 80 e se tornaram uma nova forma de comércio, precisamos agora abraçar as plataformas digitais. Naquela época, se tivéssemos virado as costas para os shoppings, estaríamos lutando contra a corrente e seríamos vencidos. Aprendemos a lidar com esse modelo de negócio e hoje temos uma grande variedade de shoppings.

Agora, uma nova variável foi acrescentada: a internet como uma plataforma de venda. Assim como o comércio de rua, os shoppings e os camelódromos são espaços de venda, a internet também é. Precisamos aprender a lidar com esses espaços de venda. Se demorarmos muito, seremos engolidos e, talvez, não tenhamos muitas chances no futuro.

Portanto, o foco é preparar as empresas para o marketplace, para trabalhar com todas as plataformas ao mesmo tempo, seja shopping, comércio de rua, venda direta pelo aplicativo ou grandes plataformas online. Não podemos nos tornar reféns da reclamação; precisamos agir a favor da mudança.

Wanderley de Faria é jornalista especializado em Economia e Negócios, com MBA em Derivativos e Informações Econômico-Financeiras pela FIA/FEA/USP - BM&FBovespa

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