Tarifa será aplicada ao etanol importado e supostas falhas na fiscalização de mercadorias produzidas com trabalho forçado

A proposta do governo dos Estados Unidos de impor novas tarifas sobre produtos brasileiros voltou a gerar preocupação no setor sucroenergético.
A medida, defendida pela administração do presidente Donald Trump, prevê uma sobretaxa de 25% sobre produtos como açúcar e etanol brasileiros, além de uma tarifa adicional de 12,5% relacionada a investigações sobre supostas falhas no combate ao trabalho forçado.
O presidente da Fieg e do Sindicato da Indústria de Fabricação de Etanol do Estado de Goiás (Sifaeg), André Rocha, avalia que a medida pode afetar a competitividade dos produtos brasileiros no mercado norte-americano e gerar impactos indiretos para toda a cadeia produtiva da cana-de-açúcar.
“O mercado internacional é extremamente sensível a questões tarifárias. Qualquer aumento de custo para acessar um mercado importante como os Estados Unidos pode reduzir a competitividade dos nossos produtos e afetar as estratégias comerciais das empresas exportadoras”, afirma.
Entenda o tarifaço
A iniciativa partiu do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), que concluiu investigações sobre práticas consideradas “irracionais” ou “desleais” por parte de diversos países, incluindo o Brasil.
No caso brasileiro, os americanos apontam dois principais pontos de divergência: a tarifa aplicada pelo Brasil ao etanol importado e supostas falhas na fiscalização de mercadorias produzidas com trabalho forçado.
Caso as medidas avancem após o período de consultas públicas previsto para julho, açúcar, etanol e pescados brasileiros poderão sofrer uma sobretaxa de 25% ao entrarem no mercado norte-americano.
Além disso, uma nova tarifa de 12,5% poderá ser aplicada sobre produtos oriundos de países que, segundo os EUA, não possuem mecanismos eficazes para impedir a importação de bens produzidos com trabalho forçado.

Reação
Em nota conjunta, a União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica) e a Bioenergia Brasil afirmaram que a tarifa aplicada pelo Brasil ao etanol importado segue as regras da Tarifa Externa Comum do Mercosul e não representa uma medida específica contra os Estados Unidos.
As entidades também destacaram que o próprio mercado americano mantém, há décadas, mecanismos de proteção ao açúcar, com tarifas elevadas e cotas de importação que limitam significativamente o acesso do produto brasileiro.
“Os Estados Unidos mantêm políticas de proteção ao açúcar que restringem as exportações brasileiras a um volume inferior a 1% do total exportado pelo Brasil”, destacaram as entidades.
A nota ainda ressalta que o etanol brasileiro é reconhecido internacionalmente como um dos biocombustíveis mais eficientes para a descarbonização do transporte, contribuindo para a redução das emissões de gases de efeito estufa.
Impactos
Segundo André Rocha, embora ainda seja cedo para estimar os efeitos concretos da medida, uma eventual redução das exportações para os Estados Unidos pode provocar uma reorganização dos fluxos comerciais globais.
“Se houver dificuldade de acesso ao mercado americano, parte da produção destinada à exportação precisará buscar outros mercados. Isso pode alterar a dinâmica de preços internacionais e gerar reflexos para toda a cadeia do açúcar e do etanol”, explica.
O dirigente ressalta, porém, que não há expectativa imediata de aumento significativo nos preços para o consumidor brasileiro. Os efeitos dependerão da evolução das negociações diplomáticas entre os dois países e da reação do mercado internacional.
Defesa do diálogo
Para o presidente do Sifaeg, a melhor saída continua sendo a negociação entre os governos. “O setor confia na capacidade diplomática do Brasil para conduzir esse processo. São mercados historicamente parceiros e eventuais divergências comerciais precisam ser resolvidas por meio do diálogo, preservando uma relação estratégica para ambos os lados”, afirma.
A posição está alinhada ao entendimento da Unica e da Bioenergia Brasil, que defenderam uma condução responsável das negociações e reforçaram a importância de preservar a cooperação bilateral em temas como biocombustíveis, segurança energética e transição para uma economia de baixo carbono.
Enquanto isso, o setor aguarda os próximos passos da investigação americana. As consultas públicas sobre as medidas estão previstas para ocorrer em julho, antes de uma eventual implementação das novas tarifas.