sábado, 6 de junho de 2026
Mulheres negras jovens seguem enfrentando as maiores barreiras

Mulheres negras jovens seguem enfrentando as maiores barreiras

Estudo revela que desemprego, informalidade, desalento e desigualdade salarial continuam afetando de forma mais intensa as jovens negras.

6 de junho de 2026

Além da dificuldade de encontrar emprego, as mulheres negras enfrentam obstáculos adicionais

O mercado de trabalho brasileiro vem apresentando sinais consistentes de recuperação nos últimos anos. Impulsionado pela redução das taxas de desemprego, aumento da ocupação e crescimento da renda média dos trabalhadores. No entanto, os benefícios desse avanço ainda não alcançam todos os grupos de forma igual.

As mulheres negras jovens permanecem na posição mais vulnerável do mercado de trabalho nacional, registrando os piores indicadores de desocupação, informalidade, desalento e rendimento. Segundo levantamento da Rede Multiatores MUDE com Elas, elaborado pelo Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (Ceert) com base nos dados da PNAD Contínua 2025, do IBGE.

O estudo aponta que, apesar dos avanços educacionais e da ampliação do acesso ao ensino formal, persistem barreiras estruturais que limitam a inserção econômica de mulheres negras entre 14 e 29 anos.

Desemprego

A desigualdade aparece já nas primeiras experiências profissionais. Entre adolescentes de 14 a 17 anos, a taxa de desocupação das mulheres negras alcança 24,7%, patamar 1,4 vez superior ao registrado entre homens brancos da mesma faixa etária.

A situação se agrava no período considerado decisivo para a transição entre escola e mercado de trabalho. Entre 18 e 24 anos, o desemprego entre mulheres negras chega a 16,5%, índice 1,6 vez superior ao dos homens brancos.

Mesmo na fase de consolidação profissional, entre 25 e 29 anos, as disparidades permanecem expressivas. Nessa faixa etária, a taxa de desocupação das mulheres negras é de 10,3%, quase o dobro da observada entre mulheres brancas e 2,8 vezes maior que a dos homens brancos.

Para a coordenadora da Rede Multiatores pelo Ceert, Shirley Santos, os números demonstram que a melhora recente do mercado de trabalho não tem sido suficiente para reduzir desigualdades históricas.

“O mercado de trabalho melhorou, mas não melhorou de forma igual para todas as pessoas. Isso evidencia que o problema não está apenas no acesso à educação, mas também nos mecanismos estruturais de exclusão que continuam operando na sociedade brasileira”, afirma.

Segundo ela, fatores como racismo estrutural, discriminação nos processos de contratação e promoção, segregação territorial e dificuldades de acesso a redes de oportunidade continuam influenciando diretamente as trajetórias profissionais dessas jovens.

Informalidade

Além da dificuldade de encontrar emprego, as mulheres negras enfrentam obstáculos adicionais relacionados à qualidade das ocupações disponíveis.

A taxa de informalidade entre jovens negras alcança 39,1%, aproximadamente dez pontos percentuais acima da registrada entre mulheres brancas. Apenas os homens negros apresentam índice superior, chegando a 44,2%.

O levantamento também chama atenção para o desalento — situação em que a pessoa desiste de procurar trabalho por acreditar que não encontrará uma oportunidade.

Atualmente, as mulheres negras representam 38,7% de todos os jovens desalentados do país. Entre aquelas com idade de 25 a 29 anos, essa participação sobe para 44,2%, reforçando a dificuldade de inserção e permanência no mercado formal.

De acordo com os pesquisadores, a localização geográfica também exerce papel decisivo nesse cenário. Moradoras de regiões periféricas enfrentam desafios adicionais relacionados à mobilidade urbana, acesso à infraestrutura, qualidade dos serviços públicos e construção de redes profissionais.

Diferença salarial

A desigualdade também se manifesta de forma contundente na renda. Em 2025, o rendimento médio das mulheres negras correspondeu a apenas 46,5% da remuneração recebida pelos homens brancos. Na prática, isso significa uma diferença salarial de 53,5%, percentual que permanece praticamente inalterado nos últimos anos.

Entre os jovens, mulheres negras recebem, em média, R$ 2.236 por mês, enquanto homens brancos alcançam rendimento médio de R$ 3.926. Na faixa de 25 a 29 anos, o abismo se amplia ainda mais: as mulheres negras recebem, em média, R$ 2.569 mensais, enquanto os homens brancos chegam a R$ 5.323.

Segundo Shirley Santos, os dados quantitativos ajudam a dimensionar as desigualdades, mas não conseguem captar integralmente todos os mecanismos de exclusão enfrentados cotidianamente.

“Os microdados permitem observar parte dessas desigualdades quando cruzamos raça, gênero, renda, escolaridade e território. Mas a experiência acumulada pelas organizações da sociedade civil também é fundamental para compreender dimensões que muitas vezes os números não conseguem capturar completamente”, explica.

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