Mercado de cerveja artesanal no estado aposta em identidade regional, turismo e investe em ingredientes do Cerrado

A cerveja artesanal deixou de ser apenas um nicho para apreciadores e passou a ocupar um espaço cada vez mais estratégico na economia goiana. São 38 cervejarias registradas e 397 cervejas cadastradas no Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa),
Assim, Goiás consolida um mercado que, embora ainda pequeno diante do cenário nacional, aposta na valorização da identidade regional, na inovação e no turismo de experiência para ampliar sua participação no setor. As informações constam no Boletim de Tendências das Cervejarias Artesanais.
Momento promissor
O momento é considerado promissor. Dados do Anuário da Cerveja 2026 mostram que o Brasil chegou a 1.954 cervejarias distribuídas por quase 800 municípios, com mais de 44 mil rótulos registrados e uma produção superior a 15 bilhões de litros por ano. O país ocupa atualmente a terceira posição entre os maiores produtores de cerveja do mundo, atrás apenas da China e dos Estados Unidos.
Além do cenário nacional favorável, projeções da consultoria Fortune Business Insights apontam crescimento médio superior a 11% ao ano para o mercado global de cervejas artesanais até 2034, impulsionado por consumidores que buscam bebidas premium, experiências gastronômicas e produtos com identidade própria.
Desafios
Em Goiás, entretanto, o setor também precisou superar desafios recentes. Segundo a analista do Sebrae Goiás, Camila Carvalho Costa, a pandemia reduziu o número de cervejarias em atividade, mas acabou fortalecendo as empresas que permaneceram no mercado.

“Esse número era até superior antes da pandemia. Depois tivemos uma redução, mas foi um momento importante de consolidação. As empresas passaram a entender a cerveja artesanal não apenas como um hobby, mas como um negócio de fato”, afirma.
Segundo ela, a maior concentração de cervejarias está em Goiânia e na Região Metropolitana, seguida por Anápolis e municípios próximos ao Distrito Federal, embora o segmento também esteja presente no Nordeste e no Sul goiano.
Consumidor
Mais do que consumir álcool, o público da cerveja artesanal procura experiências diferenciadas. Esse novo comportamento tem influenciado diretamente o desenvolvimento de produtos, ambientes e modelos de negócios.
“O cliente busca um sabor diferenciado. Quem gosta de cerveja artesanal não bebe para cair. Ele aprecia a bebida, conhece os estilos e valoriza tudo o que envolve essa experiência”, explica Camila.
Turismo cervejeiro
Essa mudança também impulsiona iniciativas de turismo cervejeiro. Desde 2023, Goiás possui o Circuito Turístico-Cultural da Cerveja Artesanal, instituído por lei estadual, que reconhece as cervejarias como atrativos turísticos e fortalece sua integração com a economia criativa.
Além disso, o Sebrae Goiás participa da criação de rotas gastronômicas que unem cervejarias, cafeterias, hamburguerias e outros estabelecimentos especializados.
Segundo Camila, o objetivo é transformar as cervejarias em espaços de convivência. “Hoje o consumidor pode visitar uma cervejaria, participar de harmonizações, conhecer o processo produtivo e experimentar diferentes estilos. O mercado passou a vender muito mais do que cerveja: vende experiências.”
Cerrado competitivo
Uma das principais apostas do setor está na valorização dos ingredientes típicos do Cerrado. Frutos como pequi, baru, cagaita, cajuzinho-do-cerrado e até mel de abelhas nativas vêm sendo utilizados na criação de novos rótulos, permitindo que as cervejarias construam uma identidade difícil de ser reproduzida por concorrentes de outras regiões.
Segundo Camila, essa vocação faz parte do próprio perfil dos mestres cervejeiros. “Quem trabalha com cerveja artesanal gosta de experimentar sabores, aromas e combinações. O Cerrado oferece um laboratório natural para desenvolver bebidas únicas, com identidade muito forte. O apreciador desse mercado está sempre procurando novas experiências”, frisou.
Além dos frutos nativos, produtores também têm explorado ingredientes regionais, como variedades de abacaxi cultivadas no Norte de Goiás, ampliando as possibilidades de harmonização e diferenciação dos rótulos.
Geração Z
As transformações no comportamento do consumidor também vêm exigindo adaptações da indústria. Segundo estudo citado pelo Sebrae, cerca de 45% dos jovens com menos de 25 anos afirmam não consumir bebidas alcoólicas regularmente, movimento que impulsiona uma nova geração de produtos.
Hoje cresce a produção de cervejas sem álcool, low carb, sem glúten e de baixo teor alcoólico, além de bebidas desenvolvidas para servir de base para drinks.
“A nova geração não quer apenas beber. Ela procura qualidade de vida, história por trás do produto, experiências e propósito. As cervejarias artesanais conseguem responder rapidamente a essas mudanças justamente porque são pequenas empresas”, explica a analista.
IA chega às cervejarias
Outra tendência apontada pelo setor é o avanço da transformação digital. Ferramentas de inteligência artificial, análise de dados e sistemas de gestão começam a ser utilizadas para controlar estoques, analisar vendas, prever demanda, acompanhar indicadores financeiros e até auxiliar no desenvolvimento de novos produtos.
Segundo Camila, ainda existe resistência por parte dos pequenos empresários, principalmente daqueles que iniciaram o negócio de forma artesanal.
“Muitas cervejarias nasceram dentro de casa e cresceram a partir de um hobby. Quando isso vira empresa, surge a necessidade de profissionalizar a gestão. A inteligência artificial ajuda justamente a entender o comportamento do cliente, organizar a produção e tomar decisões mais assertivas.”
Sustentabilidade
Além da tecnologia, a sustentabilidade aparece como um dos principais diferenciais competitivos do setor.
O aproveitamento dos resíduos da produção para fabricação de adubos e alimentação animal, o uso de embalagens recicláveis, o tratamento da água e processos produtivos mais eficientes passaram a ser vistos como fatores que reduzem custos e fortalecem a imagem das marcas.
“Hoje muitas cervejarias já adotam práticas sustentáveis, mas ainda comunicam pouco isso ao consumidor. Esse também é um diferencial competitivo importante”, destaca Camila.