Embora a exposição direta da economia goiana ao mercado norte-americano seja limitada, aumento das tarifas pode pressionar setores estratégicos.

O novo pacote de tarifas anunciado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, deve provocar impactos pontuais sobre a economia goiana. Sobretudo na indústria exportadora e no setor sucroenergético. Apesar da preocupação, especialistas ouvidos pelo EMPREENDER EM GOIÁS avaliam que Goiás chega mais protegido do que outros estados brasileiros diante do novo ciclo de protecionismo norte-americano.
A principal razão está na própria geografia das exportações goianas. Dados do comércio exterior mostram que, em 2025, a China respondeu por 43,36% de todas as exportações do Estado. Enquanto os Estados Unidos representaram apenas 4,78%, ocupando a segunda posição entre os destinos dos produtos goianos. As exportações estaduais somaram US$ 13,4 bilhões, gerando um superávit comercial recorde de US$ 8 bilhões.
Esse cenário reduz a dependência de Goiás em relação ao mercado americano, mas não elimina os riscos. “O Estado possui uma pauta exportadora bastante diversificada. Porém qualquer barreira comercial imposta pelos Estados Unidos altera os fluxos internacionais de comércio e acaba produzindo efeitos indiretos sobre toda a economia”, avalia o analista de comércio exterior, Pedro Henrique Fonseca.
O segmento mais vulnerável é o sucroenergético. Caso o etanol brasileiro seja efetivamente sobretaxado, Goiás poderá perder competitividade justamente em um mercado de elevado valor agregado. A consequência imediata seria a redução das exportações, pressionando a rentabilidade das usinas e aumentando a oferta no mercado interno.
Esse movimento tende a provocar queda nos preços domésticos e redução das margens do setor, afetando novos investimentos e a expansão da capacidade produtiva.
Outro segmento que pode sentir os efeitos é a indústria de transformação. Fabricantes de máquinas, equipamentos, implementos agrícolas, produtos químicos, minerais industrializados e alguns manufaturados podem enfrentar perda de competitividade no mercado americano.
Além da redução das exportações, empresas podem rever planos de investimento diante do aumento das incertezas no comércio internacional.
Ao contrário do que ocorre em outros estados, o agronegócio goiano deve sofrer impactos relativamente menores. Isso ocorre porque a pauta exportadora estadual está fortemente concentrada em commodities destinadas ao mercado asiático.
Em 2025, os principais produtos exportados por Goiás foram complexo soja (46,5%), carnes (18%), milho (7,5%), ferroligas (6,2%), açúcar (4,8%) e minérios de cobre (3,7%). Grande parte dessa produção segue para China, Vietnã, Irã, Holanda e outros mercados, reduzindo a dependência das compras norte-americanas.
Mesmo empresas que nunca venderam aos Estados Unidos podem ser afetadas. Se exportadores brasileiros perderem espaço no mercado americano, parte dessa produção poderá ser redirecionada para outros destinos ou para o mercado doméstico, aumentando a concorrência e pressionando preços.
Ao mesmo tempo, a insegurança no comércio internacional tende a reduzir investimentos privados e ampliar a volatilidade cambial.
Um dólar mais valorizado pode compensar parcialmente as perdas dos exportadores, mas também aumenta os custos de fertilizantes, defensivos, máquinas, equipamentos e componentes importados utilizados pela indústria e pelo agronegócio.
Os efeitos também tendem a variar regionalmente. Rio Verde, maior exportador de Goiás, responde sozinho por cerca de 29% das exportações estaduais. Em seguida aparecem Jataí, Mozarlândia, Palmeiras de Goiás e Alto Horizonte, municípios fortemente ligados ao agronegócio e à agroindústria.
Caso o cenário internacional se deteriore, esses polos poderão registrar redução no ritmo das exportações, dos investimentos privados e da geração de empregos industriais.
Nem todos os efeitos são negativos. A tendência é que empresas brasileiras acelerem a diversificação de mercados, ampliando sua presença na Ásia, Oriente Médio, África e América Latina.
Goiás reúne vantagens competitivas importantes nesse movimento, especialmente na produção de alimentos, biocombustíveis, proteínas, medicamentos, fertilizantes e mineração.
A capacidade de abrir novos mercados poderá transformar parte do impacto do tarifaço em oportunidade para ampliar a inserção internacional da economia goiana.
Embora o novo tarifaço aumente a incerteza para exportadores, Goiás entra nesse cenário em posição relativamente confortável. A combinação entre agronegócio competitivo, indústria diversificada, mineração, comércio e serviços reduz a dependência de um único parceiro comercial.