quinta-feira, 17 de setembro de 2026
BC corta Selic para 13,75%, mas mantém freio puxado

BC corta Selic para 13,75%, mas mantém freio puxado

Quinto corte consecutivo confirma ciclo de redução dos juros, mas Banco Central deixa claro que expectativas ainda limitam quedas mais fortes. Entenda.

16 de setembro de 2026

O Banco Central reduziu nesta quarta-feira (16) a taxa Selic de 14% para 13,75% ao ano, dando continuidade ao processo de flexibilização monetária iniciado em março. Foi o quinto corte consecutivo de 0,25 ponto percentual e a decisão, tomada por unanimidade pelo Comitê de Política Monetária (Copom), confirmou a expectativa predominante no mercado financeiro.

Mais importante que o tamanho do corte, porém, foi a mensagem que acompanhou a decisão. O Banco Central reconhece que a inflação perdeu força e que a economia brasileira começa a desacelerar. Mas não considera que existam condições para baixar a guarda.

O resultado é uma política monetária que começa a ficar menos restritiva, porém permanece suficientemente apertada para conter a demanda e tentar reconduzir a inflação à meta. Na prática, o Copom está promovendo uma distensão lenta dos juros, e não uma mudança brusca de direção da política monetária.

A diferença é relevante para empresas, consumidores e investidores. A Selic está caindo, mas 13,75% ao ano ainda representa um patamar elevado de juros nominais e mantém alto o custo do dinheiro na economia.

Inflação melhora

A principal justificativa para a continuidade do ciclo está no comportamento recente dos preços. A inflação acumulada em 12 meses desacelerou de 4,44% em julho para 4,22% em agosto. O IPCA de agosto registrou deflação de 0,32%, resultado melhor que o esperado pelo mercado. Embora parte importante desse movimento tenha sido influenciada por fatores temporários, especialmente a redução da conta de energia elétrica.

A desaceleração colocou a inflação corrente dentro do intervalo de tolerância da meta, atualmente fixada em 3%, com margem de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. O problema do Banco Central está menos na fotografia atual da inflação e mais no filme dos próximos anos.

As expectativas coletadas pelo Focus continuam distantes do centro da meta. A projeção para 2026 recuou recentemente para 4,9%, mas permanece acima do teto de 4,5%. Para 2027, a expectativa está em torno de 4,3%. É justamente essa persistência que ajuda a explicar a cautela.

Quando empresas, consumidores e investidores passam muito tempo esperando inflação acima da meta, essas expectativas podem contaminar reajustes de preços, salários e contratos. O Banco Central precisa então manter juros elevados por mais tempo para produzir o mesmo efeito desinflacionário.

Peso dos juros

Existe, entretanto, outro componente cada vez mais importante na decisão: a economia está desacelerando. O próprio Copom reconhece uma moderação gradual da atividade, sobretudo nos setores mais sensíveis ao crédito e aos juros, embora considere que a economia ainda apresenta resiliência e que o mercado de trabalho continua aquecido.

O Focus já vinha captando essa perda de velocidade. No fim de agosto, a mediana das projeções para o crescimento do PIB em 2026 havia recuado para 1,92%. Mais recentemente, chegou a 1,89%. Esse quadro coloca o Banco Central diante de uma equação delicada.

Manter juros excessivamente elevados por muito tempo aumenta o risco de provocar uma desaceleração maior do consumo, do crédito, dos investimentos e da atividade econômica. Reduzi-los rapidamente demais, porém, pode interromper a convergência da inflação e provocar nova deterioração das expectativas.

O corte de apenas 0,25 ponto mostra onde o Copom decidiu posicionar-se nessa equação: continuar reduzindo a pressão monetária, mas sem assumir o risco de estimular prematuramente a economia.

Petróleo

A cautela ganhou um componente adicional com o cenário internacional. A escalada dos conflitos no Oriente Médio elevou a volatilidade dos mercados e trouxe novamente o petróleo para o centro das preocupações dos bancos centrais. Na véspera da decisão do Copom, o petróleo superou US$ 100 por barril em meio às tensões geopolíticas.

Para o Brasil, petróleo mais caro pode produzir efeitos que vão muito além dos combustíveis. A alta pode pressionar custos de transporte, fretes, produção industrial e diferentes cadeias produtivas. Dependendo da intensidade e da duração do choque, esses aumentos podem se espalhar pela economia e atingir a inflação de serviços.

O ambiente externo também se tornou mais complexo porque outros grandes bancos centrais enfrentam pressões semelhantes. O Banco Central Europeu elevou seus juros em 0,25 ponto na semana passada, citando justamente as pressões inflacionárias relacionadas ao conflito no Oriente Médio.

Isso significa que o Brasil começa a cortar juros justamente quando parte do mundo desenvolvido enfrenta renovadas pressões inflacionárias.

Fiscal

Há ainda um risco doméstico que aparece de maneira explícita no comunicado: a política fiscal. O Copom voltou a afirmar que acompanha os impactos das contas públicas sobre a política monetária e os preços dos ativos.

A conexão é direta. Uma política fiscal que estimule fortemente a demanda enquanto o Banco Central tenta reduzir a inflação pode diminuir a eficiência dos juros. Além disso, uma piora da percepção sobre a trajetória da dívida pública pode aumentar os juros de longo prazo e pressionar o câmbio.

Nesse cenário, parte do trabalho realizado pelo Banco Central por meio da Selic pode ser neutralizada pela deterioração das condições financeiras. É por isso que a trajetória fiscal passa a ter importância crescente para determinar até onde a Selic poderá cair.

Crédito

Para consumidores e empresas, a redução para 13,75% é positiva, mas não significa uma queda automática e proporcional das taxas cobradas pelos bancos. A Selic funciona como referência para o custo do dinheiro, mas o crédito ao consumidor incorpora também inadimplência, impostos, custos administrativos, compulsórios, margem financeira e risco de cada operação.

O efeito tende a aparecer progressivamente. Financiamentos empresariais, capital de giro, crédito imobiliário e operações vinculadas a taxas de mercado podem começar a sentir condições menos restritivas. Para famílias, modalidades de crédito mais caras, como cartão rotativo e cheque especial, tendem a responder menos à redução da Selic.

O impacto econômico relevante ocorre pela sequência de cortes, e não por uma única redução de 0,25 ponto. Se o ciclo continuar, empresas passam a recalcular investimentos, consumidores encontram melhores condições para financiar bens duráveis e o custo de carregamento das dívidas diminui gradualmente.

Mensagem central

O ponto mais importante da decisão desta quarta-feira está justamente no que o Banco Central não fez. O Copom não acelerou o corte e tampouco assumiu compromisso com reduções futuras de determinada magnitude.

Ao afirmar que a extensão total do ciclo dependerá das novas informações, o Comitê preserva liberdade para reagir à inflação, ao câmbio, ao petróleo, à atividade econômica e ao quadro fiscal. Essa estratégia revela um Banco Central disposto a continuar retirando gradualmente o aperto monetário, mas ainda distante de considerar vencida a batalha contra a inflação.

A própria projeção do Copom ajuda a explicar essa postura. Para o primeiro trimestre de 2028 — atual horizonte relevante da política monetária — o BC trabalha com inflação de 3,2% no cenário de referência. Ou seja, mesmo depois de um longo período de juros elevados, a projeção ainda permanece ligeiramente acima do centro da meta de 3%.

A Selic de 13,75%, portanto, deve ser interpretada menos como sinal de dinheiro barato e mais como uma redução controlada do grau de restrição monetária. Para a economia brasileira, começa a surgir algum alívio. Para empresas e consumidores, o crédito tende gradualmente a encontrar condições melhores. Para o Banco Central, entretanto, ainda existe pouco espaço para comemoração.

O desafio dos próximos meses será descobrir até onde os juros podem cair sem reacender a inflação — e, sobretudo, sem provocar uma nova deterioração das expectativas justamente quando a economia começa a sentir com maior intensidade os efeitos do longo período de política monetária restritiva.

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