Estado indutor ou maior protagonismo privado? Os programas dos principais candidatos colocam gastos, impostos, investimentos, indústria e relações de trabalho no centro da eleição de 2026.

A disputa pela Presidência da República em 2026 coloca frente a frente não apenas projetos políticos distintos, mas duas concepções diferentes sobre como fazer a economia brasileira crescer nos próximos quatro anos. De um lado, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) propõe aprofundar um modelo no qual o Estado atua como indutor do investimento, da industrialização e da expansão da renda. Do outro, Flávio Bolsonaro (PL) aposta na redução do tamanho do Estado, maior controle das despesas, desregulamentação e ampliação do protagonismo do capital privado.
O EMPREENDER EM GOIÁS avaliou os programas apresentados pelos candidatos para a economia, geração de empregos e contas públicas. As diferenças aparecem especialmente na política fiscal, na atuação das empresas estatais, nas relações trabalhistas e na estratégia para estimular investimentos. Apesar das divergências, os dois candidatos enfrentam um problema comum: encontrar espaço para financiar suas propostas sem ampliar de maneira insustentável a dívida pública.
No caso de Lula, o desafio será conciliar investimentos, políticas sociais e valorização da renda com responsabilidade fiscal. Para Flávio Bolsonaro, será demonstrar que a redução de despesas prometida será suficiente para abrir espaço para diminuição de impostos e, ao mesmo tempo, preservar políticas públicas e investimentos.
A principal diferença entre os dois programas está no papel atribuído ao poder público. Lula pretende manter o Estado como instrumento relevante da estratégia de desenvolvimento. A proposta envolve investimentos públicos, bancos oficiais, Petrobras, políticas industriais e programas sociais combinados à atração de capital privado.
A estratégia pode ser sintetizada em um ciclo no qual investimento público e aumento da renda estimulam consumo, produção, emprego e novos investimentos. O programa também prevê continuidade das concessões e parcerias privadas. Portanto, não se trata de substituir o capital privado pelo Estado, mas de utilizar o setor público para direcionar e potencializar investimentos considerados estratégicos.
Flávio Bolsonaro parte de uma lógica diferente. Seu programa atribui maior protagonismo ao mercado e estabelece como prioridades redução da máquina pública, controle mais rígido das despesas, desburocratização e diminuição da carga tributária. Nesse modelo, o ciclo esperado começa pelo ajuste das contas públicas: menos despesas e maior eficiência estatal permitiriam reduzir a pressão tributária e melhorar o ambiente de negócios, estimulando investimentos privados, produtividade, empregos e renda.
Independentemente do resultado das urnas, o próximo presidente terá na política fiscal um dos principais desafios econômicos. Lula defende a manutenção do atual arcabouço fiscal, combinada à preservação de espaço para investimentos públicos. O problema é que a expansão simultânea de políticas sociais, investimentos e valorização de rendimentos exige crescimento consistente da arrecadação ou controle das demais despesas.
Quanto maior for a expansão dos gastos sem aumento correspondente das receitas, maior tende a ser a pressão sobre resultado fiscal, dívida pública, juros e expectativas dos investidores.
Flávio Bolsonaro pretende enfrentar a questão pelo lado da despesa. Entre as propostas estão um novo mecanismo de limitação dos gastos públicos, redução de ministérios, cargos e despesas administrativas. O programa também aponta para retomada de privatizações e desestatizações.
A equação também não é simples. Para que seja possível reduzir impostos sem deteriorar as contas públicas, os cortes de despesas precisam ser suficientemente relevantes e permanentes — tarefa que historicamente encontra resistência política e limitações constitucionais.
Assim, embora os caminhos sejam diferentes, ambos terão de responder à mesma pergunta: como fazer a economia crescer sem aumentar a trajetória da dívida pública?
A valorização da renda continua sendo uma das principais diferenças do programa petista. Lula pretende manter a política de reajustes reais do salário mínimo e políticas de transferência de renda. A estratégia parte do princípio de que o aumento do poder de compra das famílias, especialmente das camadas de menor renda, estimula o mercado consumidor.
O programa também defende tributação mais progressiva, fazendo com que contribuintes de maior renda arquem proporcionalmente com uma parcela maior da arrecadação. No mercado de trabalho, as diferenças são ainda mais evidentes. Lula incorpora propostas como redução da jornada semanal, fim da escala 6×1 sem redução salarial, regulamentação dos trabalhadores de aplicativos e maior proteção das relações de trabalho.
São medidas com potencial de elevar a renda e a proteção dos trabalhadores, mas que também deverão gerar debate empresarial sobre produtividade e custos trabalhistas.
Flávio Bolsonaro segue direção mais liberal, priorizando flexibilização, empreendedorismo, produtividade e redução do custo de contratação e produção.
Outro ponto relevante do programa de Lula é a tentativa de ampliar o peso da indústria na economia brasileira. A chamada neoindustrialização envolve setores considerados estratégicos, como inteligência artificial, economia digital, minerais críticos, tecnologias de baixo carbono, biocombustíveis e indústria verde.
O governo teria participação ativa por meio de financiamento, investimentos, políticas de inovação e instrumentos de estímulo à produção nacional.
A estratégia é aproveitar áreas nas quais o Brasil possui vantagens competitivas — energia limpa, produção agrícola, minerais estratégicos e mercado consumidor — para desenvolver cadeias industriais de maior valor agregado.
Flávio Bolsonaro também busca ampliar investimentos produtivos, mas utiliza instrumentos diferentes. Em vez de uma política industrial fortemente coordenada pelo governo, seu programa aposta principalmente na melhoria do ambiente de negócios, redução de impostos, segurança jurídica, desregulamentação e maior liberdade para alocação do capital privado.
A infraestrutura aparece como uma das áreas nas quais existe maior convergência sobre o diagnóstico, embora os instrumentos sejam diferentes. Lula pretende aprofundar investimentos por meio de uma nova etapa do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), combinando recursos públicos, concessões e investimentos privados. Rodovias, ferrovias, saneamento, habitação, infraestrutura urbana e energia estão entre os setores que podem receber novos investimentos.
Flávio Bolsonaro também pretende ampliar concessões e participação privada, mas com menor dependência do investimento direto do Tesouro. Para setores como construção pesada, logística, concessões rodoviárias, ferrovias e energia, portanto, os dois programas podem gerar oportunidades — embora por mecanismos diferentes.
Poucos temas representam tão claramente as diferenças entre os dois projetos quanto o papel das empresas estatais. No programa de Lula, a Petrobras permanece como instrumento estratégico não apenas do setor de petróleo, mas da política industrial e energética. Refino, petroquímica, fertilizantes, indústria naval e transição energética aparecem associados à atuação da companhia. A política energética pretende combinar expansão das fontes renováveis e biocombustíveis com continuidade da exploração de petróleo e gás.
O campo bolsonarista tradicionalmente defende menor intervenção governamental sobre empresas e mercados, maior competição e ampliação da participação privada. A diferença é relevante porque afeta não apenas a Petrobras, mas todo o ecossistema de fornecedores, investidores e cadeias produtivas ligadas à energia.
Os efeitos dos dois programas não seriam homogêneos sobre a economia. No modelo proposto por Lula, setores ligados à infraestrutura, construção civil, indústria, energia renovável, inovação e empresas beneficiadas por financiamento ou políticas públicas podem encontrar oportunidades adicionais.
Trabalhadores de menor renda e beneficiários de políticas sociais também tendem a receber atenção maior por meio de salário mínimo, transferências e políticas de proteção social.
Por outro lado, empresas intensivas em mão de obra podem enfrentar aumento de custos caso mudanças trabalhistas sejam implementadas sem ganhos correspondentes de produtividade. Contribuintes de maior renda também podem ser mais afetados por uma política tributária progressiva.
No modelo defendido por Flávio Bolsonaro, setores privados beneficiados por concessões, privatizações, redução de impostos e desregulamentação tendem a encontrar ambiente mais favorável. Empresas mais sensíveis à carga tributária e à burocracia também podem se beneficiar.
Em contrapartida, um ajuste fiscal mais agressivo pode atingir atividades dependentes de despesas públicas, estruturas administrativas e segmentos econômicos mais ligados ao investimento direto do governo.