Coletivo Rosa, fundado por Paula Braga, reúne mulheres com diferentes histórias em prol da moda circular

Uma roupa que deixou de ser usada pode valer muito mais do que parece. Em Goiânia, peças que antes poderiam permanecer esquecidas nos armários ou acabar descartadas se transformaram em fonte de renda, pequenos negócios e, para algumas mulheres, no principal sustento da família.
É essa lógica que impulsiona o Coletivo Rosa, iniciativa que reúne principalmente mulheres empreendedoras em torno da moda circular. Atualmente, cerca de 120 expositoras participam das feiras realizadas no Cepal do Jardim América, no primeiro e no segundo sábado de cada mês. Em uma única edição, o evento chega a movimentar R$ 120 mil em vendas.
O que começou de maneira informal cresceu e se transformou em uma rede de empreendedorismo feminino. Cerca de 90% dos integrantes são mulheres, com idades que vão dos 16 anos à terceira idade. Entre elas estão estudantes, mães, mães atípicas, viúvas e mulheres que encontraram na atividade uma alternativa para reconstruir a própria vida financeira.
Para a fundadora do Coletivo Rosa, Paula Braga, mais do que vender roupas, a proposta é criar condições para que essas mulheres tenham autonomia. “A nossa meta principal é gerar independência financeira para a mulher, para que ela possa ser provedora do lar, empreendedora e ter a própria renda. Queremos que ela não precise depender de outra pessoa e possa sustentar a casa, os filhos e os estudos”, afirma ao EMPREENDER EM GOIÁS.
Ganhar escala
A trajetória do Coletivo Rosa ajuda a mostrar como pequenos empreendimentos podem ganhar escala quando trabalham em rede. A primeira feira reuniu 52 mulheres no ginásio do Parque Ateneu, capacidade máxima do espaço. Cada participante contribuiu com apenas R$ 10. O dinheiro arrecadado foi usado para contratar um carro de som e realizar outras ações de divulgação.
As expositoras levaram roupas, acessórios e outros produtos que tinham em casa e já não utilizavam. O resultado surpreendeu: mais de R$ 40 mil foram movimentados logo na primeira edição. “Todas levaram tudo que tinham de roupa, acessórios e de tudo que não usavam mais para vender. Nessa primeira edição nós geramos mais de R$ 40 mil de economia com moda circular”, relembra Paula.
Vieram outras duas edições no mesmo espaço. Com o crescimento do público e do número de participantes, a feira passou pelo CEU das Artes, no Parque Flamboyant, até chegar ao Cepal do Jardim América, onde é realizada há cerca de quatro anos e meio.

Profissão
Para parte das participantes, vender peças usadas deixou de ser uma renda complementar e tornou-se atividade profissional. Há expositoras que vivem exclusivamente do dinheiro obtido com brechós e moda circular e algumas conseguem faturar mais de R$ 3,5 mil em uma única feira.
O crescimento também abriu espaço para a diversificação dos negócios. Além dos brechós tradicionais, há empreendedoras especializadas em moda plus size, infantil e vintage. Artesanato, alimentação, bijuterias e maquiagem passaram a integrar o ecossistema criado em torno das feiras.
Algumas mulheres deram um passo além: começaram expondo no coletivo e posteriormente abriram seus próprios brechós físicos.
O modelo funciona também como uma espécie de porta de entrada para quem deseja empreender, mas dispõe de pouco capital. O Coletivo Rosa mantém espaços com preços sociais e, em determinados casos, oferece bancas sem custo para empreendedores que não possuem recursos para começar.
Inspiração da avó
A vocação social do projeto tem raízes na infância de Paula Braga. Ela acompanhou o trabalho da avó, Noemi Guimarães, que foi coordenadora da Vila Redenção na extinta Fundação Municipal de Desenvolvimento Comunitário. Noemi promovia bazares que permitiam às famílias comprar roupas a preços acessíveis. A experiência marcou a neta e, anos depois, ajudou a inspirar o negócio.
“Entrar para o mundo dos brechós é um caminho sem volta porque você descobre o potencial da sustentabilidade de circular uma peça de roupa. Roupas não são descartáveis. O que não serve mais para você vai servir para outra pessoa”, diz Paula.
Em 2015, ela criou no Facebook o grupo Cabide Rosa, destinado inicialmente à comercialização de roupas usadas. A plataforma também aproximava as participantes, que passaram a combinar pontos de venda presenciais e encontros. Durante a pandemia, a iniciativa ganhou uma dimensão social ainda maior, com arrecadação de alimentos e distribuição de cestas básicas.
Foi justamente no período próximo ao fim da pandemia que a história ganhou uma virada decisiva. Com um bebê pequeno e grávida de gêmeos, Paula enfrentava dificuldades financeiras. A necessidade de gerar renda ajudou a transformar a rede virtual em uma feira presencial. A experiência que nasceu de uma necessidade pessoal acabou se tornando oportunidade para centenas de outras mulheres.
Moda circular
O modelo também está inserido em uma transformação no comportamento de consumo: em vez da lógica de comprar, usar e descartar, a moda circular busca prolongar a vida útil das peças. No Coletivo Rosa, sustentabilidade e empreendedorismo caminham juntos. Uma roupa parada no armário de uma pessoa se transforma em produto para outra e, no meio desse processo, gera renda.
O resultado é uma cadeia econômica baseada em reaproveitamento, consumo acessível e pequenos negócios. Para muitas participantes, entretanto, o impacto vai além do dinheiro. As feiras funcionam como espaço de convivência, apoio e troca de experiências entre mulheres que vivem realidades diferentes, mas compartilham o desafio de gerar a própria renda.
Depois de crescer em número de participantes, público e volume de negócios, o Coletivo Rosa prepara agora um novo capítulo. No dia 28 de setembro, foi realizada a 1ª Assembleia Geral do Coletivo Rosa, na Casa da Indústria, em Goiânia, com apoio do Instituto Euvaldo Lodi (IEL), entidade ligada à Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg) e ao Sistema Indústria.
O encontro reuniu integrantes do projeto, representantes de entidades parceiras e do poder público. Um dos principais objetivos é avançar na organização e formalização da iniciativa. A nova estrutura poderá abrir caminho para ampliar parcerias, acessar recursos, desenvolver capacitações e fortalecer uma rede que nasceu de encontros entre mulheres interessadas em vender aquilo que já não usavam.