sábado, 13 de abril de 2024
Quase 130 mil goianos são donos do seu próprio banco

Quase 130 mil goianos são donos do seu próprio banco

Milhares de brasileiros têm descoberto que podem deixar de ser apenas um cliente comum de banco, muitas vezes mal atendido e sobretaxado. O nome desta pequena revolução chama-se cooperativismo de crédito que, desde a ampliação de sua regulação pelo Banco Central no início dos anos 2000, não para de crescer no País, mesmo em tempos […]

17 de agosto de 2017

Milhares de brasileiros têm descoberto que podem deixar de ser apenas um cliente comum de banco, muitas vezes mal atendido e sobretaxado. O nome desta pequena revolução chama-se cooperativismo de crédito que, desde a ampliação de sua regulação pelo Banco Central no início dos anos 2000, não para de crescer no País, mesmo em tempos de crise econômica.

A explicação é simples: na cooperativa a pessoa não é mera cliente, passa a ser também dona do empreendimento cooperativo, adquirindo uma cota-parte. Cada cooperativa de crédito tem seu próprio estatuto e sua política, mas é possível se associar a partir de R$ 50,00. Lembrando que o dinheiro aplicado na cota-capital é do próprio associado. Isso faz com que nenhum banco, seja público ou privado, consiga atender melhor a esse “cliente” do que uma cooperativa, que oferece os mesmos produtos e serviços financeiros.

Atualmente, no Brasil, cerca de 9 milhões de pessoas já são cooperadas de uma das mais de 1 mil instituições financeiras do gênero. Em Goiás, as cooperativas de crédito já reúnem quase 130 mil pessoas e cerca de R$ 6 bilhões em ativos nos dois principais sistemas Sicoob e Sicredi, de acordo com dados do Sicoob Goiás Central, uma das três centrais sediadas no Estado (duas do Sicoob e uma do Sicredi). Crescendo cerca de 18% ao ano em Goiás, em média, essas instituições financeiras fecharam 2016 exibindo um resultado positivo de R$ 330 milhões.

Concentrado em três grandes sistemas (Sicoob, Sicredi e Unicred), o cooperativismo de crédito conta com mais de 5,7 mil postos de atendimento em todos os Estados brasileiros e está presente em 90% dos municípios, em muitos deles sendo a única instituição financeira disponível. Todas as bandeiras (sistemas) de cooperativas de crédito no País já representam, somadas, a sexta maior instituição financeira do mercado. Os ativos totais chegam a R$ 221 bilhões e giraram R$ 81,8 bilhões em empréstimos no ano passado.

Os lucros (sobras) no cooperativismo de crédito são distribuídos entre os cooperados, enfatiza José Salvino

Vantagens
As vantagens comparativas de participar de uma instituição financeira compartilhada são percebidas logo no início. “Mesmo nos momentos de crise e arrocho no crédito, a tomada de dinheiro sai mais em conta numa cooperativa”, afirma Luís Alberto Pereira, presidente do Sicoob Engecred, a terceira maior cooperativa de crédito no Estado, ao EMPREENDER EM GOIÁS.

“Enquanto nos bancos o lucro é distribuído entre os acionistas, no cooperativismo de crédito as sobras são distribuídas entre os cooperados que são ao mesmo tempo usuários e donos da instituição financeira”, diz José Salvino de Menezes, presidente do Sicoob Goiás Central e vice-presidente do Conselho de Administração do Banco Cooperativo do Brasil, o Bancoob, braço financeiro das cooperativas do Sicoob no País.

Mesmo diante da crise econômica no final de 2015, que se acentuou em 2016, a cooperativa goiana fechou o ano apresentando números sólidos. “Remuneramos o capital do associado a 100% da taxa Selic média anual. Em 2017, a perspectiva é de voltarmos a distribuir boas sobras. Trabalhamos com a possibilidade de retornar ao associado cerca de 2% sobre o volume médio anual de suas movimentações. Se terminarmos o ano com a taxa Selic a 8%, isso significa um rendimento extra de 25%, dinheiro que não teria nos bancos comerciais”, diz Luís Alberto.

Luís Alberto, do Sicoob Engecred: empréstimos custam bem menos numa cooperativa de crédito

Há pelo menos dez anos, quando o Conselho Monetário Nacional flexibilizou as regras de atuação, o setor cresce num ritmo de dois dígitos anualmente. O Sicoob fechou o balanço de 2016 com aumento de 7,2% no resultado financeiro, sobras de R$ 2,5 bilhões (contra R$ 2,38 bilhões em 2015). Já os ativos totais somaram R$ 76,3 bilhões, crescimento de 32,5% em relação ao ano anterior, segundo dados do Bancoob.

Expansão
Além das vantagens imediatas aos cooperados, como ter os mesmos produtos e serviços dos bancos com taxas mais vantajosas e participar das sobras ao final de cada exercício, outro horizonte de atração para o cooperado surgiu em 2013, quando o Banco Central criou o Fundo Garantidor do Cooperativismo de Crédito, semelhante ao Fundo Garantidor de Crédito do sistema financeiro tradicional, que garante ao cooperado até R$ 250 mil em caso de dissolução (falência) da cooperativa. Segundo especialistas ouvidos pelo EMPREENDER EM GOIÁS, o novo fundo aumentou as condições de igualdade na competição no mercado financeiro.

Com isso, e o crescente interesse na modalidade bancária cooperativa, há a expectativa de que muito em breve o Brasil se aproximará dos índices europeus de participação das cooperativas no sistema financeiro nacional. Na Alemanha, por exemplo, cerca de 30% de toda a movimentação bancária do país é feita por cooperativas de crédito. No Brasil são, ainda, módicos 4%.

Para esse crescimento do cooperativismo de crédito se massificar no Brasil, só falta o setor aprender a se comunicar melhor e mostrar as vantagens em relação aos bancos comerciais, inclusive citando o vasto portfólio de produtos e serviços, o time de profissionais especializado em assessorar o cooperado em sua gestão financeira, os horários de atendimento mais flexíveis, sem falar do cafezinho e de confortáveis estruturas físicas disponíveis aos “clientes”, coisa que nenhum banco (público ou privado) sugere oferecer.

 

Wanderley de Faria é jornalista especializado em Economia e Negócios, com MBA em Derivativos e Informações Econômico-Financeiras pela FIA/FEA/USP - BM&FBovespa

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One thought on “Quase 130 mil goianos são donos do seu próprio banco”

  1. Roque disse:

    É de se pensar! A gente fica aí sendo explorado nesses bancos… ótima reportagem!!!