domingo, 19 de maio de 2024
Mercado de crédito terá alta volatilidade, diz especialista

Mercado de crédito terá alta volatilidade, diz especialista

O atual cenário do Brasil pode afetar o apetite dos investidores por risco e a demanda por IPOs, follow-ons e debêntures.

10 de abril de 2023

Lia Canato: “O Brasil enfrenta um cenário econômico desafiador”

O atual cenário macroeconômico do Brasil pode gerar volatilidade no mercado de crédito nos próximos meses. O que afetará o apetite dos investidores por risco e a demanda por IPOs, follow-ons e debêntures. Segundo Lia Canato, da WIT Corporate, a situação é influenciada mais por fatores políticos e econômicos locais do que por acontecimentos no exterior. A especialista, com 30 anos de mercado financeiro, recomenda que empresas do setor varejista em dificuldades devido a juros altos avaliem fontes alternativas de financiamento. Além de renegociarem dívidas e reduzirem custos operacionais para enfrentar os desafios. Confira a entrevista:

O que esperar do mercado de crédito, com emissão de IPO, follow-on e emissão de debêntures para os próximos meses?

Em relação ao mercado de crédito, podemos esperar uma certa volatilidade nos próximos meses, devido ao atual cenário macroeconômico que enfrentamos. A emissão de IPOs, follow-on e debêntures pode ser afetada pela redução do apetite dos investidores por risco, em decorrência de diversos fatores. Como a instabilidade política no Brasil, a guerra na Ucrânia e a quebra da cadeia de suprimentos. Isso pode levar a uma maior cautela dos investidores, o que pode afetar a demanda por emissões de ações e debêntures. No entanto, as condições macroeconômicas podem mudar rapidamente e é possível que novas oportunidades surjam no mercado de crédito nos próximos meses.

Os fatos no exterior, como a aquisição do Credit Suisse pelo Grupo UBS, são mais isolados ou afetam diretamente o setor no Brasil?

Os acontecimentos no mercado financeiro global podem ter algum impacto mínimo e indireto no setor financeiro brasileiro. Mas geralmente são mais isolados e afetam principalmente as empresas e investidores envolvidos nestas transações. A situação econômica e política do País tem um impacto muito maior no mercado financeiro e de crédito local. No momento, o Brasil enfrenta um cenário econômico desafiador, com altos níveis de endividamento público, inflação crescente e incertezas políticas. Isso pode levar a uma maior volatilidade nos mercados de ações e títulos, bem como a uma maior aversão ao risco por parte dos investidores.

Por outro lado, a taxa básica de juros (Selic) tem subido, o que pode ser positivo para os investidores que buscam retornos mais altos. Além disso, o setor financeiro brasileiro tem enfrentado mudanças significativas nos últimos anos. Como a entrada de novos players e a evolução das fintechs, que oferecem serviços financeiros digitais. Isso tem pressionado as instituições tradicionais a se adaptarem e inovarem, o que pode trazer novas oportunidades e desafios nos próximos meses e anos.

O segmento de varejo está passando por dificuldades com juros elevados, atividade fraca e o cenário global instável. De que forma as empresas podem agir neste momento, principalmente as que necessitam de crédito?

Acredito que as empresas que necessitam de crédito neste momento podem adotar algumas medidas para enfrentar o cenário atual. Uma delas é avaliar as fontes de financiamento disponíveis no mercado e escolher aquela que melhor atenda às suas necessidades. É importante lembrar que, apesar das taxas de juros elevadas, ainda existem alternativas para obtenção de crédito. Como empréstimos bancários, emissão de títulos e capitalização de recursos próprios. Outra medida importante é a renegociação de dívidas com os credores, buscando melhores condições de pagamento, como prazos mais longos e juros menores.

Além disso, as empresas podem buscar formas de reduzir seus custos operacionais, cortando despesas não essenciais e revisando contratos com fornecedores. A diversificação da linha de produtos e a entrada em novos segmentos de mercado podem ajudar a reduzir a dependência de um único produto ou mercado. Essas são algumas das medidas que as empresas podem adotar neste momento para enfrentar as dificuldades no segmento de varejo. É importante ressaltar que a situação atual exige uma análise cuidadosa e estratégica por parte das empresas.

Caso os bancos recuem em relação ao fornecimento de crédito no Brasil, pode ocorrer uma desaceleração do crescimento econômico do País.

O que pode acontecer caso os bancos recuem em relação ao fornecimento de crédito no Brasil?

Caso os bancos recuem em relação ao fornecimento de crédito no Brasil, pode ocorrer uma desaceleração do crescimento econômico do País. Isso porque o crédito é um importante fator para o investimento e o crescimento das empresas, além de ser fundamental para o consumo das famílias. A falta de acesso ao crédito pode afetar negativamente a capacidade das empresas de investir em novos projetos, expandir seus negócios e gerar empregos. Isto pode levar a uma desaceleração do crescimento econômico. O cenário pode ser ainda mais preocupante em momentos de crise econômica, quando a disponibilidade de crédito é crucial para a recuperação econômica. Portanto, é importante que os bancos mantenham a oferta de crédito em níveis adequados para garantir o crescimento sustentável da economia. Ao mesmo tempo, é importante que os tomadores de crédito sejam responsáveis e planejem adequadamente suas dívidas para evitar inadimplência e riscos financeiros.

A alta da inadimplência e do endividamento deve reduzir ainda mais a oferta de crédito?

Sim, a inadimplência e o endividamento elevado podem causar um aumento do risco percebido pelos bancos, que passarão a exigir taxas de juros maiores para cobrir esse risco. Isso pode gerar um ciclo vicioso de redução da oferta de crédito, aumento das taxas de juros e diminuição do crescimento econômico. É importante ressaltar que a inadimplência e o endividamento excessivo podem ser indicadores de problemas estruturais da economia. Mas eles devem ser tratados com políticas públicas e reformas estruturais para reduzir esses problemas e aumentar a oferta de crédito de forma sustentável.

Quais oportunidades são geradas com a crise do mercado de crédito?

A crise do mercado de crédito pode trazer algumas oportunidades para os investidores e empresas. Uma das principais oportunidades é a aquisição de ativos com descontos significativos, principalmente de empresas com potencial de crescimento a longo prazo. Além disso, a crise pode levar à consolidação do mercado, com empresas menores sendo adquiridas por empresas maiores e mais estabelecidas. Outra oportunidade pode ser a oferta de produtos e serviços financeiros alternativos para suprir a demanda que não está sendo atendida pelos bancos tradicionais. Essa lacuna pode ser preenchida por empresas de tecnologia financeira, as chamadas fintechs, que oferecem produtos e serviços financeiros inovadores e com taxas mais competitivas. Por fim, a crise do mercado de crédito pode levar a uma maior conscientização sobre a importância do gerenciamento financeiro e da gestão de riscos, tanto para os investidores quanto para as empresas.

É possível saber como e quando a saúde financeira das empresas será recuperada, mesmo com a continuação da taxa de juros em patamar elevado?

A recuperação da saúde financeira das empresas pode ser um processo demorado e depende de diversos fatores. Incluindo a melhoria da economia em geral, a redução das taxas de juros, a retomada do consumo e a oferta de crédito. É importante lembrar que a manutenção da taxa básica de juros em patamares elevados pode afetar a capacidade das empresas de acessar recursos financeiros e custo de oportunidade para investimentos e expansão. Vale ressaltar que a recuperação econômica em geral pode ser um processo gradual. Depende da adoção de políticas públicas que incentivem o investimento e a criação de empregos. Pode levar algum tempo, mas é importante que as empresas estejam preparadas para aproveitar as oportunidades e se adaptarem às novas condições do mercado.

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