Há uma força silenciosa que nasce no chão batido da fazenda, cultivada no amor à terra que herdei do meu pai e na delicadeza dos girassóis que ele me ensinou a amar. Mas ser uma líder no agronegócio exige transformar esse afeto em garra diária.
Este texto nasce desta verdade: do orgulho de carregar raízes profundas e da coragem de construir uma autoridade própria, provando todos os dias o valor de ser mulher, mãe e gestora no agro.
Essa força, no entanto, não vem do nada. Ela nasce da consciência de que, na lida real do campo, ninguém governa sozinho. Aqui, a rotina é diferente da cidade, porque você entende que é 50% ação humana e 50% Deus. É essa fé como licença para liderar que nos sustenta: é Ele que gera o sol que nos ilumina, as futuras plantações e os novos animais que nascerão.
Por isso, somos fora da curva. A potência da mulher à frente da rotina viva do agro nasce de entender que a natureza não espera. Não existe dia off, feriado ou domingo. Em tempo de secagem, devido à plantação, precisamos do sol; na mesma terra, no mesmo período e no mesmo talhão, na plantação em nascimento, precisamos de chuva branda, chuva fina.
Nossa grande realização é ver, sem sentir, uma semente de valor e qualidade produzindo em alta escala, nascendo. É como olhar o campo de girassol florido, uma flor que trago no coração, no amor que tenho pelo meu pai, que também amava e plantava girassol, e que sempre me lembra de onde vêm as minhas raízes e a minha luz. E na pecuária, sem ver e sem observar, você agradece a Deus por um nascimento, vendo a genética melhorar com investimento e bons produtores.
Mas a lida no campo não permite atalhos nem cabe nas regras da cidade; ela é visceral, reage vinte e quatro horas por dia e cobra sabedoria de quem decide assumir as rédeas. Para dominar essa rotina insana, é primordial ter uma equipe personalizada para cada setor.
Essa equipe, além de cursos rurais, deverá no início ser moldada pelo seu superior, seja gerente ou proprietário da empresa, facilitando assim e evitando o incômodo de ter pessoas erradas no negócio, o que poderia deixar a operação sem controle total.
É preciso ter um planejamento do dia e a organização do que cada empresa produz. Afinal, vivemos uma transição de cenários e uma dupla gestão, onde cada qual está no seu setor, mas uma depende ou finaliza o negócio da outra; como quando temos uma fazenda somente de matrizes e, após o desmame, transfere-se os animais para a fazenda somente de corte e confinamento.
Para sustentar toda essa engrenagem com marca própria, o processo de quem vive uma sucessão depende muito de como os pais educarão seus filhos, construindo uma base sólida com estrutura, informação e segurança, exatamente como essa herança de amor e respeito à terra que recebi dentro de casa.
Porém, a principal estratégia para ser autoridade na sua empresa é o estudo e a graduação adequando a prática juntos, em constante alerta e informação. A bota faz parte da nossa rotina, por segurança no campo e presença na cidade, trazendo uma visão de autoridade. Afinal, a minha autoridade foi paga com poeira, bota gasta e muitas horas de trecho.
Não adianta, por exemplo, você fazer uma faculdade de veterinária, mas não ir no campo e não pôr a mão na terra: aí você não é veterinária. A teoria não funciona sem a prática. Agora a prática, depois de muito quebrar a cabeça, e se a pessoa for inteligente, aí sim, ela vira mestre.
Para liderar toda essa estrutura, no entanto, a virtude mais importante é a humildade. Trabalhamos diariamente com pessoas simples e aprendemos que autoridade de verdade não se impõe com dureza: exige-se o respeito doscolaboradores e de todos com quem convivemos através da presença e do exemplo.
A liderança e a paixão pela terra vêm no sangue, a gente sente desde a infância que é ali que quer viver, aprender e se desenvolver. Mas essa intuição de berço não basta: a tomada de decisão vai sendo aprimorada ao longo da vida, em estudos constantes, reuniões estratégicas e com as informações atualizadas do dia a dia.
Entre a exaustão e o orgulho de ser uma mulher do agro, a gente segue firme.Pois por trás de uma mulher no agro, existe uma pessoa que precisa provar todos os dias que é pertencente àquele lugar, seja nas fazendas, em casa ou no meio social.
O campo nos ensina que nada germina sem tempo, respeito e dedicação. A nossa trajetória como mulheres do agro é a prova viva de que é possível unir a sensibilidade do olhar com a firmeza da gestão. Que a nossa história sirva de farol para as próximas gerações: o nosso lugar é a terra, a mesa de decisões e onde mais a nossa coragem decidir plantar.
Bruna Bráz Machado Sant’Anna
Gestora em Agronegócio e empresária