Novidade é produzida pela Nutricandies, startup goiana que transforma os resíduos do cacau em alimentos de alto valor agregado

Uma tecnologia que começou dentro do laboratório, agora ganha escala industrial na Região Metropolitana de Goiânia. A Nutricandies, startup criada pelo engenheiro químico goiano Gustavo Rocha, instalou em Goianira uma unidade fabril voltada à produção de alimentos desenvolvidos a partir do aproveitamento de partes do cacau que, normalmente, são descartadas ou subaproveitadas.
O principal produto que sai da fábrica é o chocolate feito à base de mel de cacau, apresentado pela empresa como o primeiro chocolate zero gordura do mundo. A inovação substitui a base tradicional do chocolate por um ingrediente extraído da polpa do próprio fruto, permitindo chegar a uma formulação sem gordura.
Nova etapa
A instalação da unidade representa uma nova etapa para a Nutricandies. Segundo Gustavo Rocha, CEO da empresa, os recursos captados ao longo dos últimos anos permitiram que a tecnologia deixasse a bancada de pesquisa e chegasse ao mercado.
“Os recursos foram aplicados em três estágios diferentes. O primeiro momento foi o investimento na pesquisa. O segundo, na estruturação de uma unidade fabril para processar esses insumos, ou seja, levar da bancada de laboratório para uma planta industrial”, explica.
Agora, a terceira etapa é justamente ampliar a presença comercial da marca. A fábrica possui capacidade superior ao volume produzido atualmente, que gira em torno de mil potes de 180 gramas por mês.
Oportunidade

A inovação parte de um problema encontrado na própria cadeia produtiva do cacau. Segundo Gustavo, no modelo convencional, até 90% do fruto pode ser subaproveitado, já que a produção tradicional de chocolate utiliza principalmente as amêndoas.
A Nutricandies encontrou justamente nesses materiais uma oportunidade para desenvolver novos alimentos. “A gente viu o potencial nutricional desses produtos e conseguiu aplicar esses subprodutos que eram desperdiçados como ingredientes para desenvolver novas formas de alimentos”, afirma.
Um desses ingredientes é o mel de cacau, líquido extraído da polpa do fruto. Nas regiões produtoras, ele pode ser consumido como bebida, mas possui alta perecibilidade e precisa de conservação adequada para não ser perdido. A empresa desenvolveu tecnologias para aproveitar esse material e transformá-lo em ingrediente para novos produtos.
Foi dessa pesquisa que nasceu o chocolate que hoje é produzido na Região Metropolitana de Goiânia. “Ele é o primeiro chocolate zero gordura do mundo. Então, atende principalmente um público que tem restrições ao consumo de gorduras e manteiga”, explica Gustavo.
Diferença
Segundo o pesquisador, a diferença está justamente na utilização do mel de cacau em uma formulação que dispensa a gordura presente nos chocolates convencionais.
“Todo chocolate tem gordura por conta da manteiga do cacau e a gente conseguiu formular utilizando outra parte do cacau, que é o mel do cacau. Além disso, é um produto que mantém propriedades antioxidantes e nutricionais da base do fruto”, acrescenta.
O produto possui 37 calorias por colher de sopa e é comercializado atualmente em potes de 180 gramas.
Tecnologia goiana
Apesar de a produção industrial estar concentrada em Goiás, a matéria-prima vem de regiões produtoras de outros estados. A Nutricandies mantém conexões com produtores desde o Sul da Bahia até o Pará e desenvolveu um programa para capacitar agricultores no aproveitamento de partes do cacau que antes tinham pouco ou nenhum valor comercial.
Atualmente, cerca de 40 produtores participam da iniciativa, com destaque para fornecedores do Sul da Bahia. A proposta é levar conhecimento científico e tecnologias de conservação para que o mel de cacau seja recuperado dentro de padrões sanitários e possa se transformar em uma nova fonte de renda no campo.
A estratégia se conecta ao conceito de upcycling alimentar, que transforma materiais que seriam desperdiçados em produtos de maior valor agregado. Na cadeia convencional, entre 75% e 90% do cacau, considerando casca e polpa, pode ser descartado ou subaproveitado depois da retirada das amêndoas.
A trajetória da Nutricandies começou ainda antes da fábrica. Gustavo iniciou pesquisas na área aos 16 anos, durante o curso técnico em química, e a empresa foi formalizada em 2017 dentro do programa de incubação da Universidade Federal de Goiás (UFG). Atualmente, ele é mestre e doutorando em Ciência e Tecnologia de Alimentos pela instituição.
Ao longo desse caminho, o projeto recebeu apoio de instituições nacionais e internacionais, entre elas Fundação Cargill, Nestlé e Unesco. Parte desses recursos ajudou justamente a financiar a pesquisa e a transformação do conhecimento científico em uma operação industrial.

Ponto de partida
O chocolate de mel de cacau é, por enquanto, o único produto da Nutricandies disponível comercialmente. Ele já pode ser encontrado em plataformas de comércio eletrônico e em lojas especializadas em produtos naturais na Região Metropolitana de Goiânia.
Nos laboratórios, porém, a empresa trabalha em outras possibilidades. Entre os projetos em desenvolvimento estão um adoçante produzido a partir do cacau e novas bases de chocolate, além de pesquisas para aproveitar a casca do fruto.
“Continuamos explorando os outros produtos do cacau. Trabalhamos com mel de cacau hoje e já estamos buscando desenvolver outros alimentos com a casca e outras partes que também têm muito potencial nutricional”, afirma Gustavo.
A proposta é ampliar gradativamente o aproveitamento do fruto e, posteriormente, aplicar o mesmo conceito a outras cadeias produtivas que geram subprodutos com potencial alimentar.
Fotos: Divulgação