Indústria e comércio manifestaram preocupação, enquanto setor de supermercados se mostra moderado. Empregados do comércio celebram a conquista

Com a recente aprovação da PEC que acaba com a escala de trabalho 6×1, representantes dos diversos setores em Goiás reagiram de diferentes formas. O setor produtivo se mostra apreensivo, principalmente comerciantes e indústria, enquanto trabalhadores celebram a conquista. Alguns setores, porém, conseguem ver pontos positivos e negativos na decisão.
Indústria
O setor industrial recebeu a mudança com apreensão, principalmente pelos impactos que a redução da jornada pode trazer para os custos das empresas e para a competitividade da indústria goiana. O setor entende que o principal impacto não é na quantidade de dias, mas na redução do número de horas trabalhadas sem redução salarial, o que pode aumentar o custo da mão de obra.
“Entendemos que a qualidade de vida do trabalhador é importante, mas precisamos discutir como essa mudança será implementada, considerando as diferenças entre os setores e o porte das empresas.”, disse Flávio Rassi, vice-presidente da Federação de Indústrias do Estado de Goiás (Fieg), ao EMPREENDER EM GOIÁS.
Segundo ele, o primeiro impacto para o setor será a necessidade de reorganizar as jornadas e os processos produtivos. Para manter o mesmo volume de atividade, algumas empresas poderão precisar contratar mais funcionários ou investir em automação e ganhos de eficiência. Esse cenário preocupa principalmente as empresas que têm menos capacidade de absorver custos adicionais.
Diálogo
O dirigente entende que é prioritário avaliar os impactos da nova jornada em cada atividade e iniciar o diálogo com os sindicatos e os representantes dos trabalhadores.Para ele, medidas compensatórias, como a desoneração da folha de pagamento, para reduzir o custo da contratação e ajudar as empresas a manter os empregos e a competitividade, são boas opções.
“Precisamos de planejamento, segurança jurídica e diálogo entre o setor produtivo, os trabalhadores e o poder público. O objetivo é fazer com que a mudança seja implementada de forma responsável, considerando tanto a qualidade de vida dos trabalhadores quanto a capacidade de produção, a geração de empregos e o desenvolvimento econômico de Goiás”, conclui Rassi.
Preocupação
A Fieg também divulgou uma nota pouco depois de atender o EMPREENDER EM GOIÁS, na qual ressaltou preocupação. Para o presidente André Rocha, a busca por melhores condições de trabalho precisa estar associada a ganhos de produtividade e a um ambiente econômico que permita às empresas absorver as mudanças.
“Se hoje já enfrentamos desafios consideráveis para contratar profissionais e preencher as vagas abertas, essa situação ficará ainda mais crítica e difícil de ser administrada pelas indústrias”, reforçou.
Destacou também que a medida amplia as apreensões do setor produtivo em relação aos custos de produção, à competitividade da indústria, à geração de empregos formais e ao poder de compra da população.
Comércio
O comércio entende que haverá um impacto relevante no setor, no turismo e serviços, especialmente em empresas menores. Além disso, reitera que a possibilidade do consumidor pagar a conta no final é muito grande. Muitas empresas, como as que estão em shoppings, empresas de alimentação, hotelaria, hospitalar e postos de gasolina terão que adequar suas escalas.
O presidente da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de Goiás (Fecomércio), Marcelo Baiocchi, entende que algumas empresas conseguirão se adequar sem aumentar o custo, mas outras terão que diminuir serviços e outras terão que ampliar funcionários. Por isso, algumas empresas já pensam em trocar trabalhadores por automação para suportar essa nova interferência do governo federal nas atividades.
“A longo prazo o impacto é no preço, consumo, inflação e custo. O trabalhador na realidade trabalha 44 horas semanais, então ele trabalha cinco dias inteiros e meio dia no sábado. Ou seja, a impressão de trabalhar meio dia a menos vai impactar diretamente nos preços. Há uma expectativa de que isso pode gerar até 30% de aumento onde a mão de obra é mais intensiva”, completa.

Outro ponto levantado pelo dirigente é a proximidade com o Natal. “O primeiro passo para o empresário agora é fazer conta. Ele tem 60 dias para início dessa política, que vai entrar em vigor dia 20 de dezembro, quatro dias antes do Natal, que é o melhor período de venda do empresário”, frisou.
Supermercados
A Associação Goiana de Supermercados (AGOS) disse que acompanha a situação com atenção, mas se mostrou moderada. A entidade reconhece a importância das medidas voltadas à valorização dos trabalhadores e à melhoria da qualidade de vida, mas ressalta que a mudança representa um desafio significativo para o setor supermercadista.
“Diferentemente de outros segmentos econômicos, os supermercados precisam manter equipes em funcionamento durante toda a semana, inclusive aos sábados, domingos e feriados. A redução da jornada, sem a correspondente diminuição das despesas com pessoal, exigirá uma reorganização criteriosa das operações, especialmente nos pequenos e médios estabelecimentos, que possuem menor capacidade de absorção de custos adicionais”, disse Sirlei Antônio, presidente da entidade.

Até a entrada em definitivo da mudança, a entidade orientará seus associados a adotar medidas de planejamento e eficiência, como o mapeamento dos horários de maior movimento, a reorganização das escalas de trabalho, a distribuição estratégica das equipes e a avaliação de soluções tecnológicas.
“A AGOS também considera fundamental o fortalecimento do diálogo com as entidades sindicais, buscando soluções negociadas que assegurem o cumprimento da legislação, a continuidade das atividades e a preservação dos postos de trabalho”, reiterou Sirlei.
Trabalhadores
Para os trabalhadores do comércio, a mudança é a concretização de um anseio antigo da categoria e uma vitória do trabalhador. Para Eduardo Amorim, presidente do Sindicato dos Empregados no Comércio no Estado de Goiás (Seceg), o fim da escala 6×1 resolverá problemas do trabalhador em diversas áreas.

“Estivemos pesquisando e acreditamos também que problemas de relacionamentos familiares, falta de convivência e até mesmo divórcios são motivados por esse distanciamento que ocorre em função da sobrecarga de trabalho do trabalhador”. Para ele, o comerciário goiano está aplaudindo de pé essa nova medida.
Eduardo Amorim acredita que a medida não tem lados negativos, nem mesmo para os empresários. “Não há pontos negativos para o trabalhador e nós ousamos dizer que para o empresário também não, porque o trabalhador terá uma recuperação das suas energias. Nós temos plena e total convicção que foi bom para o trabalhador, que poderá conviver com a família e terá uma recuperação emocional e física muito melhor. Então os empresários ganharão com aumento de produtividade”.