Economia brasileira avançou apenas 0,1% em abril. Juros elevados seguem limitando investimentos e crescimento.

A economia brasileira segue crescendo, mas em ritmo moderado. Dados divulgados pela Fundação Getulio Vargas mostram que o Produto Interno Bruto (PIB) registrou avanço de apenas 0,1% entre março e abril de 2026. O dado reforça os sinais de desaceleração em meio ao cenário de juros elevados, crédito caro e incertezas internacionais.
Na comparação com abril do ano passado, o crescimento foi de 1,8%. Mesmo percentual registrado no trimestre móvel encerrado em abril, enquanto o acumulado de 12 meses aponta expansão de 2%.
Os números revelam uma economia que continua avançando. Mas sem força suficiente para acelerar investimentos e ampliar de forma consistente a capacidade produtiva do país.
O principal fator apontado por analistas para o crescimento mais tímido é a manutenção da taxa Selic em níveis historicamente elevados.
Durante praticamente todo o mês de abril, a taxa básica de juros permaneceu em 14,75% ao ano. Somente no fim do mês houve um corte de 0,25 ponto percentual. Seguido por nova redução na reunião mais recente do Comitê de Política Monetária (Copom), que levou a Selic para 14,25%.
Embora o Banco Central sustente que a política monetária restritiva é necessária para controlar a inflação, os efeitos sobre a economia são evidentes.
Com juros elevados o crédito fica mais caro para empresas e consumidores, projetos de expansão são adiados, o consumo financiado perde força e o investimento produtivo se torna menos atrativo. O resultado é uma economia que cresce, mas abaixo do seu potencial.
Apesar do ambiente desafiador, alguns indicadores ajudaram a sustentar o PIB. O consumo das famílias cresceu 2,6% no trimestre móvel encerrado em abril, alcançando o melhor desempenho desde o início de 2025.
O mercado de trabalho ainda aquecido, a massa salarial em expansão e programas de transferência de renda continuam sustentando parte da demanda interna.
Outro destaque foi o setor externo. As exportações avançaram 9,3%, impulsionadas principalmente pela indústria extrativa. Segundo a FGV, cerca de 60% do crescimento exportador veio desse segmento, que registrou expansão de 27,8% no período.
O agronegócio e a mineração continuam exercendo papel relevante na sustentação da atividade econômica nacional, compensando parcialmente a fraqueza observada em setores mais dependentes de crédito.
Um dos dados mais observados por economistas é a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), indicador que mede os investimentos realizados na economia por meio da compra de máquinas, equipamentos, obras e infraestrutura.
O indicador cresceu 0,7% no trimestre móvel encerrado em abril.
Embora o resultado represente a primeira alta após quatro períodos consecutivos de retração, o avanço continua modesto diante das necessidades do país.
Estima-se uma taxa de investimento brasileira de apenas 18% do PIB, percentual considerado baixo para uma economia emergente que busca ampliar produtividade, competitividade e crescimento sustentável.
Especialistas costumam apontar que países em processo acelerado de desenvolvimento mantêm taxas de investimento acima de 25% do PIB.
Além dos desafios internos, a economia brasileira também enfrentou fatores externos relevantes. O conflito entre Irã e Israel provocou forte volatilidade nos mercados internacionais e elevou temporariamente o preço do barril de petróleo, aumentando os custos globais de energia e transporte.
Esse movimento gerou preocupação adicional para os bancos centrais ao redor do mundo, incluindo o Brasil, uma vez que combustíveis mais caros tendem a pressionar a inflação.
Segundo a coordenadora do Monitor do PIB da FGV, Juliana Trece, o resultado positivo da economia demonstra certa resiliência diante desse ambiente adverso.
Ainda assim, a cautela das autoridades monetárias reflete justamente o receio de que choques externos possam comprometer o processo de desaceleração inflacionária.
O corte de apenas 0,25 ponto percentual na Selic foi recebido com críticas por representantes do setor produtivo. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) argumenta que a redução foi insuficiente para alterar significativamente as condições de crédito enfrentadas pelas empresas.
Segundo a entidade, os juros reais continuam entre os mais altos do mundo, limitando investimentos, reduzindo a competitividade da indústria e dificultando a expansão da produção.
A avaliação é compartilhada por diversos segmentos empresariais, especialmente construção civil, comércio e pequenas empresas, setores altamente dependentes de financiamento.
Para a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), a continuidade do ciclo de redução dos juros será fundamental para destravar novos investimentos e impulsionar projetos imobiliários e de infraestrutura.
Os números divulgados pela FGV mostram que a economia brasileira continua avançando, mas ainda enfrenta obstáculos estruturais importantes.
O crescimento de apenas 0,1% em abril evidencia que o país caminha em uma espécie de equilíbrio delicado: por um lado, o consumo e as exportações mantêm a atividade positiva; por outro, os juros elevados seguem limitando investimentos e expansão produtiva.
O desafio dos próximos meses será encontrar o ponto de equilíbrio entre o controle da inflação e a necessidade de acelerar o crescimento econômico.
Enquanto isso não acontece, o Brasil segue demonstrando resiliência, mas ainda distante de um ritmo de expansão capaz de impulsionar de forma mais robusta a geração de empregos, a produtividade e os investimentos de longo prazo.